sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

MotoGP – 2020, o mundial de Joan Mir

 

Joan Mir – Campeão mundial de 2020

 

Marc Márquez, 6 vezes campeão do mundo, declarou recentemente que, mesmo sem ter protagonizado múltiplas vitórias em provas excitantes, com disputas incríveis, Joan Mir é o campeão do mundo de 2020. O regulamento da MotoGP é explícito, reconhece que o concorrente que somar o maior número de pontos nas provas da temporada deve ser proclamado como campeão. Em 2020 este prêmio foi conquistado nas pistas por Joan Mir em sua Suzuki.

 

Em 2002 a MotoGP entrou na era dos motores 4 tempos. Os organizadores cederam às pressões do movimento ambientalista, que condenavam os 2 tempos pela poluição gerada, e das fábricas que não viam viabilidade econômica para desenvolver tecnologia que não pudesse ser portada para produtos para sua linha de produção. Desde então os vencedores de mundiais sempre pilotaram motos Honda (Hayden, Stoner & Márquez) ou Yamaha (Rossi & Lorenzo), com duas exceções, a Stoner com Ducati em 2007 e Mir com a Suzuki em 2020.


                                                                   Márquez vs Rossi

 

A temporada de 2020 apresentou uma série de peculiaridades em função da pandemia do Corona Vírus que, além dos riscos inerentes à saúde pública, desestruturou diversos setores da economia. Para evitar o cancelamento do mundial, a entidade organizadora foi obrigada a optar por medidas drásticas, a temporada foi reduzida para 13 GPs (posteriormente a 14ª prova em Portimão foi incluída), todas as etapas realizadas em território europeu com abrangência geográfica restrita para evitar a necessidade de longos deslocamentos. Um calendario compactado, com algumas provas duplicadas em fins de semana consecutivos para ajudar a reduzir os custos das equipes, um rígido controle sanitário com períodos de quarentena para todos os participantes, pilotos e tripulação, que testassem positivo para o vírus e outras providências necessárias.

 

A MotoGP está em uma cruzada para garantir altos níveis de competitividade e, em consequência, melhores espetáculos para os (tele) espectadores. Regulamentos rigorosos e restritivos impedem que um equipamento seja muito superior que os outros em todos os aspectos da competição. Motores V4 podem produzir maior velocidade, cilindros em linha respondem melhor em curvas, porém no geral vantagens e desvantagens são compensadas e as competições equilibradas. Dificilmente as diferenças de tempos entre os top ten excedem a poucos segundos e frequentemente entre os primeiros fica abaixo de 1 segundo.


John Surtees no Isle of Man TT 1958


Em todos as 72 temporadas do mundial já realizadas, apenas em 2 oportunidades o campeão venceu todas as provas. Em 1959 o britânico John Surtees venceu as 7 etapas realizadas, fato repetido 9 anos mais tarde (1968) pelo italiano Giacomo Agostini, os dois pilotavam equipamentos MV Agusta, com desempenho absurdamente superior a todos os outros concorrentes. Para efeitos de ilustração, no GP Isle of TT, 3ª etapa da temporada de 1968, Agostini abriu uma diferença de quase 9 minutos em relação ao segundo colocado e sua velocidade média foi 12,28 km/h maior.

 

Joan Mir fez história durante 2020. Ele foi o 7º piloto mais jovem a vencer um mundial da MotoGP, entrando em um seleto clube onde tem a companhia de Marc Márquez, Freddie Spencer, Casey Stoner, Mike Hailwood, John Surtees e Valentino Rossi. Foi o 1º campeão com uma Suzuki 4 tempos. Considerando a relação entre os pontos possíveis (350) e os obtidos (171) a eficiência de Mir na temporada foi de apenas 48,85%, a segunda menor em 7 décadas de competição, maior apenas que os 43,75 registrados por Umberto Masetti em 1952 (28 pontos em 64 possíveis). Mir venceu uma única prova na temporada.

 

Se de certa forma os resultados obtidos pelo novo campeão são compatíveis com o alto grau de competitividade da atual MotoGP, contrastam com os resultados obtidos por Marc Márquez na temporada passada, 420 pontos em 475 possíveis. Considerando que a moto Honda do antigo campeão não era nem de longe o melhor equipamento do grid, a única explicação é reconhecer que ele é um piloto excepcional (fora da curva).

 

Uma maneira de interpretar os resultados de 2020 é que houve mais perdedores que vencedores. Dos candidatos ao título, Quartararo desabou na segunda metade da temporada, Vinales e a sua Yamaha aparentemente não falam o mesmo idioma, Dovizioso levou ao limite as suas diferenças de opinião com a direção da equipe, Alex Rins viu a sua criação brilhar nas mãos de Mir e Pol Espargaro saiu da KTM sem ter conseguido a sua primeira vitória.

 

Pilotos considerados coadjuvantes mostraram serviço, especial menção para Franco Morbidelli, o vice-campeão de 2020. Franco obteve 3 vitórias na temporada, pilotou um equipamento híbrido baseado no protótipo que Valentino Rossi utilizou em 2019 com alguns desenvolvimentos 2020, defendendo as cores de uma equipe satélite da Yamaha. Acumulou mais pontos que os representantes oficiais de fábrica além de ter ofuscado a estrela ascendente de Fábio Quartararo. O exemplo de Morbidelli foi seguido por Takaaki Nakagami, que com uma RC213V modelo 2019 da independente LCR Idemitsu foi a maior contribuição da Honda no campeonato. Aliás, o primeiro em muitos anos em que a Honda não consegue nenhuma vitória.

 


Takaaki Nakagami – A melhor Honda da temporada

 

A principal questão é por que 2020 foi uma temporada estranha e existem um sem número de razões que devem ser consideradas. Os organizadores foram obrigados a trabalhar com um cronograma muito condensado, que exigiu programar etapas em circuitos fora da época ideal e com temperaturas ambiente e da pista não ideais. O calor foi excessivo do verão em Jerez e em Le Mans a temperatura estava muito baixa. Além disso, o que aparentemente devia facilitar o espetáculo, provas consecutivas disputadas no mesmo circuito, na prática complicou. Dificilmente o setup de um equipamento na primeira prova foi o ideal para a segunda corrida. Houve muito pouco tempo, por vezes quase nenhum, para testes que permitissem a melhor adequação dos protótipos às pistas.

 

A janela de temperatura ideal para o novo pneu traseiro da Michelin é muito estreita e exigiu uma mudança no modo de pilotar, ou seja, a experiência anterior dos pilotos foi praticamente zerada, todos tiveram que aprender como trabalhar em uma nova conjuntura. Talvez explique por que pilotos experimentados como Crutchlow (18º colocado na classificação geral) e Rossi (15º) tenham enfrentado tantas dificuldades.

 

A ausência de Marc Márquez também impactou na imprevisibilidade da temporada. O espanhol é reconhecido, com méritos, como o melhor piloto dos tempos atuais. Faltou uma referência nas pistas, alguém que pudesse descobrir ou criar uma maneira de contornar as condições adversas. A sua insistência e realizar uma volta prematura depois de seu acidente na prova de abertura da temporada, aliada a falta de postura firme dos médicos, resultou em seu afastamento em 2020 e talvez no início de 2021. Sem a necessidade de assumir a postura de profeta do acontecido, é evidente para todos que a função de uma haste metálica em um membro fraturado é para manter a imobilidade do osso, não resistir aos esforços necessários para pilotar uma moto.

 

Não há como comentar a temporada 2020 sem mencionar o fim de carreira de Andrea Iannone. Se o dopping existe em praticamente todas as modalidades esportivas, a MotoGP por certo não é uma exceção. Como o assunto está praticamente ausente do noticiário, é lícito supor que não existe controle ou, se existir, é insuficiente. Uma declaração de Maverick Vinales é exemplar, ele disputa a principal categoria desde 2015 e lembra de apenas duas oportunidades em que participou de controles antidoping. O fato da MotoGP ser uma modalidade que exige uma perfeita sintonia entre o piloto e a máquina e a capacidade de concentração do piloto é levada ao extremo, estímulos não naturais devem ser combatidos sob pena de macular a competição. 

 

A defesa de Iannone não conseguiu comprovar a possibilidade contaminação acidental e o piloto recebeu a suspenção prevista pelo regulamento, 4 anos.

 

A ausência de Iannone (Maniac) priva os futuros espectadores de cenas antológicas da MotoGP, como o atropelamento de um albatroz em 2015 no GP de Phillip Island, uma ultrapassagem dupla na mesma prova sobre Marc Márquez e Valentino Rossi, a primeira vitória da Ducati na era pós Stoner no GP da Áustria (2016) e na mesma temporada a incrível proeza de sonegar um duplo pódio para a fábrica italiana ao atropelar seu colega de equipe na última curva do GP de Rio Hondo.

 

Fim de carreira para Andreia Iannone

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

MotoGP – 2020, o “annus horribilis” da Yamaha

 




 

Se houver uma expressão que indique um resultado totalmente decepcionante para uma temporada, pior que “annus horribilis”, pode ser utilizado para caracterizar 2020 para a Yamaha. Tudo o que poderia ter dado errado aconteceu. O GP da Europa, realizado em Valência, foi a síntese das adversidades enfrentadas pela fábrica. Caracterizou um dos três piores resultados desde que a fábrica entrou no mundial de motociclismo da FIM em 1973. Excluindo o GP de Monza em 1973 (acidente fatal com Jarno Saarinen) e Misano em 1993 (desastre que deixou Wayne Rainey paraplégico), foi o fim de semana mais desastroso da fábrica do ponto de vista técnico. Quase tudo o que poderia ter dado errado aconteceu.

 

Acidente com Jarno Saarinen em Monza em 1973

                                                                                                          

Acidente com Wayne Rainey em Misano 1993

 

Na quinta-feira a fábrica foi comunicada de uma penalização pelos comissários da FIM por ter utilizado motores ilegais na prova realizada em Jerez. A inabilidade dos responsáveis pela comunicação criou constrangimento nos boxes.  Alguns afoitos imaginaram que a Yamaha havia deliberadamente quebrado os lacres e alterado peças fundamentais no YZR-M1. A ausência de um comunicado oficial da fábrica ou dos comissários tornou impossível descobrir exatamente o que havia acontecido e sugeriu má fé e uma infração deliberada aos regulamentos. Lembrando, os motores utilizados devem conter peças exatamente iguais às do motor entregue para a diretoria técnica da MotoGP no início da temporada. As agruras da Yamaha com as válvulas do motor iniciaram quando a produção das peças foi descontinuada na empresa terceirizada que fabricava os componentes. A fábrica encontrou um novo fornecedor, mas começou a temporada usando válvulas de duas empresas diferentes. As peças tinham a mesma especificação, porém eram de origens diferentes, que contraria as regras da MotoGP. Semelhantes, mas não exatamente iguais às do motor de amostra entregue ao controle técnico da MotoGP antes da primeira corrida. Esta foi a gênese de todo o imbróglio.

 

Quando 3 dos 4 motores Yamaha (2 da equipe oficial e 2 da Petronas) equipados com válvulas do novo fornecedor não resistiram no GP de abertura - ironia, o único que não teve problemas foi o do vencedor, Fábio Quartararo – a empresa construiu lotes subsequentes de motores com válvulas em estoque do antigo fornecedor, idênticas às instaladas no motor de amostra. A Yamaha afrontou o regulamento quando os 4 pilotos usaram as novas válvulas na primeira corrida e quando Morbidelli usou um dos primeiros motores durante os treinos e qualificação do GP de Styria (Áustria 2). 

 

A demora da divulgação da penalidade foi em razão da Yamaha ter encomendado uma análise independente de ambas as marcas de válvula, na esperança de provar ao controle técnico da MotoGP que eram exatamente iguais. Os resultados foram disponibilizados antes do GP da Europa, comprovaram que havia algumas diferenças mínimas de material e, em consequência, as sanções foram impostas sem, entretanto, penalizar os pilotos.

 

A Yamaha ainda tem um problema sério. Em função da pandemia as 6 fábricas envolvidas na competição concordaram em utilizar os mesmos motores em 2021, talvez não haja peças antigas suficientes em estoque.

 

O GP da Europa foi desastroso para Maverick Vinales, um de seus mecânicos testou positivo e outros 4 que dividiam o mesmo alojamento tiveram que abandonar o circuito e colocados em quarentena. Vinales havia perdido um motor quando pulou da moto sem freios na Áustria e necessitou um extra, como penalidade foi obrigado a largar do Pitlane.

 

Maverick Vinales pulou da moto sem freios na Áustria

 

Durante a prova, o principal candidato ao título, Fabio Quartararo caiu na primeira volta. Recuperou o equipamento e voltou para a prova para ser o último dos 14 classificados, atrás de Vinales (13º) e de Morbidelli, que foi o 11º com uma calibragem errada no pneu dianteiro. Valentino Rossi em sua primeira prova depois da quarentena por ter testado positivo para a Covid, não completou por um problema elétrico. Desde Valência, em 2007, a Yamaha não viu nenhum piloto com seus equipamentos no top 10.

 

Em 2019 Fábio Quartararo obteve um desempenho excepcional, em cinco oportunidades esteve no pódio por menos de1 segundo do vencedor Marc Márquez. Seu comportamento nas pistas por uma equipe independente, com uma limitação de giros no motor, resultou em um contrato com a equipe oficial para ocupar a vaga de Valentino Rossi. Em 2020, seu segundo ano na classe principal, obteve vitórias nas duas primeiras provas e encaminhou o título mundial, liderou a pontuação durante muitos meses, até seu desempenho despencar depois de 8 provas.


          Queda sincronizada de Aleix Espargaro e Fábio Quartararo no GP Europa em 2020

 

Quartararo atribui ao equipamento sua queda de rendimento. Alega que não se sente mais confortável, e sugere que as modificações feitas para 2020 deixaram a moto mais nervosa, mais imprevisível. O francês atribui as 3 vitórias de Morbidelli como resultado de utilizar o modelo 2019. Para a mídia o jovem piloto, 21 anos, já aprendeu um discurso muito utilizado por esportistas, “Eu ganho, o equipamento perde”.

 

Estranha justificativa em uma temporada onde a Yamaha venceu metade das provas,7 (Quartararo 3, Morbidelli 3 e Vinales 1) em 14.

 

A preparação do motor Yamaha para 2020 foi para atender as solicitações dos pilotos de maior potência, como resultado prejudicou a natureza de motor dócil e sua confiabilidade. Os principais problemas enfrentados pelos engenheiros são os mesmos que as temporadas passadas, déficit de potência e entrega agressiva de torque, que faz o pneu traseiro perder tração. Existem suspeitas que o problema pode ser combustão incompleta ou massa de virabrequim incorreta. O cerne do motor está congelado, então os esforços estão endereçando medidas alternativas como eletrônica, refrigeração e escape. Por enquanto, como resultado do congelamento do atual motor para 2021 devido à Covid, o inferno astral da fábrica nipônica está longe de acabar.











MotoGP - Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia


Motor YZR-M1

 

“Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia”. O verso escrito por Lulu Santos no início da década oitenta explica porque algumas leis naturais, que sempre foram aceitas sem restrições, já não são mais consenso. Por exemplo, a cultura popular aceita como verdade que uma imagem vale por mil palavras, enquanto os avanços da tecnologia apresentam fatos que desmentem esta premissa. Um texto descrevendo uma das retas do circuito da Ilha de Man TT utiliza 117 palavras e demanda, formatado com MS Word, 12 kb. Uma foto com boa definição da mesma reta ocupa, em formato JPG, 2.669 kb. Neste contexto a foto requer o espaço equivalente aproximadamente a 26 mil palavras.

 

Uma outra frase que ganhou credibilidade é original dos operadores do Jogo do Bicho, uma bolsa ilegal de apostas considerada como uma contravenção (crime menor) que faz parte da cultura tupiniquim: “Vale o que está escrito”. As instituições que fazem parte do poder judiciário emitem com frequência sentenças onde o que o texto explicito da lei está sujeito a interpretações, poucos dias atrás o Supremo Tribunal Federal estava julgando o que significa um artigo da Constituição que diz que “é vedada a reeleição”. Quatro 4 juízes entenderam que, em algumas circunstâncias, “vedada” significa “permitida”.

 

Longa reta do Ilha de Man TT


Uma peça inadequada na construção dos motores da YZR-M1, associada à livre interpretação do texto do regulamento da MotoGP para a temporada 2020, causaram um enorme constrangimento para a Yamaha e criaram um mal-estar entre os participantes pela punição esdrúxula aplicada pelos comissários da FIM para a equipe.

A MotoGP foi seriamente afetada por crises financeiras na segunda metade da década dos anos 2000. Em 2006 a pressão da Organização Mundial de Saúde (OMS) surtiu efeito e a União Europeia baniu o patrocínio do tabaco em competições esportivas. Grupos que patrocinavam múltiplas equipes da MotoGP, como Malboro e Gauloises, foram proibidos de anunciar na categoria. Os donos de equipes ainda não tinham absorvido o baque quando em 2008 importantes grupos financeiros sofreram perdas significativas com a crise das hipotecas nos EUA, que costuma ser representada pela falência do Banco Lehman Brothers. A crise se espalhou pelo mundo e o dinheiro ficou escasso. Não houve uma reposição rápida de patrocinadores e, como resultado, em 2010 o grid ficou comprometido com poucos participantes.

Neste ambiente foi criado o primeiro pacote de regulamentos para reduzir custos na MotoGP, que incluía a limitação do número e do desenvolvimento de motores durante uma temporada, menor duração de treinos, limitação de testes, restrição do número de pneus, normatização dos tamanhos de rodas e proibição de alguns controles eletrônicos.

Ainda assim o grid continuou muito reduzido e, em 2012, o regulamento permitiu a participação das equipes Claiming Rule Team (CRT), uma classe específica para que grupos com menor orçamento pudessem participar do Mundial com até 12 motores por temporada (o normal é 6) e tanques de combustível com capacidade maior (24 litros em vez de 21). Os CRTs foram substituídos pela classe Open a partir de 2014, desta vez, os inscritos nesta classe concordavam em utilizar uma central eletrônica padronizada (Magneti Marelli) em troca de certos privilégios, novamente ligados ao número de motores, consumo de combustível e tipos de pneus. Os mesmos privilégios (concessões) foram estendidos aos fabricantes que não tinham conquistado vitórias em anos anteriores ou que estavam fazendo sua estreia. A opção estratégica da Ducati foi ingressar nesta classe para se preparar adequadamente para o futuro.

A regra atual é que os motores devem ser lacrados antes da primeira prova e não podem ser alterados durante a temporada. O livro de regras da competição especifica explicitamente que “Um motor aprovado é aquele que tem todas as peças na sua construção idênticas em todos os aspectos às peças de um motor de amostra lacrado e entregue ao Diretor Técnico da MotoGP”.

 

Exemplos de lacres utilizados pela MotoGP


As restrições exigem que todas as unidades sejam lacradas para impedir que as fábricas modifiquem os motores. Todas as peças devem ser idênticas em todos os motores alocados para cada piloto (em temporadas normais 7, em 2020 foram 5 porque o número de etapas foi reduzido por causa da pandemia).

Os rumores que a Yamaha teria alterado seus motores após o lacre sugeriam que os engenheiros haviam quebrado os selos de seus motores YZR-M1, para substituir as válvulas defeituosas fabricadas por um fornecedor externo que não resistiram e avariaram os motores de Valentino Rossi, Maverick Vinales e Franco Morbidelli no GP de abertura da temporada em Jerez. O procedimento da Yamaha foi instalar novas válvulas no seu segundo lote de motores, que foram selados e disponibilizados para uso após o desastre de Jerez. Independente de interpretações, mesmo que as peças tenham as mesmas características, a troca de fabricante deve ser interpretada como uma infração ao regulamento.

De acordo com as regras "alterações em peças lacradas são permitidas exclusivamente por questões de segurança e que não podem ser um fator de benefício de desempenho", as alterações podem ser realizadas com o consentimento unânime do MSMA (Associação dos fabricantes). O problema é que uma válvula queimada não caracteriza um problema de segurança. A Yamaha justifica que mudou as peças por um “entendimento incorreto da regulamentação atual” e que “as válvulas de dois fornecedores diferentes foram fabricadas de acordo com uma única especificação”.

A fabricante encaminhou um pedido formal à MSMA para substituir as válvulas defeituosas em seus motores sobreviventes do GP da Espanha, os rivais exigiram detalhes exatos para que pudessem considerar o pedido, o que levou a Yamaha a cancelar a solicitação.

 

Os melhores pilotos da Yamaha no início da temporada - Vinales e Quartararo

 

Os problemas identificados em Jerez deixaram os 4 pilotos Yamaha com três motores cada para completar os 13 GPs restantes da temporada, um par equipado com as válvulas problemáticas já estava selado. Em circunstâncias normais a vida útil de um motor é de 1.500 km, o problema da Yamaha obrigava os pilotos a rodarem mais de 2.400 km com cada motor sobrevivente. Vinales não conseguiu, um de seus motores foi destruído quando ele saltou da moto no GP de Estíria e ele foi obrigado a recorrer a um 6º motor, em consequência foi penalizado para largar dos boxes no GP da Europa disputado em Valência.

Durabilidade não é uma ciência exata, Morbidelli venceu em Valência utilizando um motor que, pelos registros, rodou mais de 2.500 km. Já havia sido utilizado parcialmente nas 2 provas de Misano, Barcelona, 2 de Aragon e em Valência (GP da Europa). Provavelmente é o motor com maior quilometragem que venceu um GP na era dos 4 tempos.

Morbidelli vence em Valência com um motor com mais de 2.500 km de uso

 

Estranhíssima foi a posição dos comissários da FIM. Depois de toda a lambança patrocinada pela Yamaha, decidiram que os pilotos não foram beneficiados e aplicaram sanções apenas para o fabricante no mundial de construtores. Algo do tipo, curar um cavalo manco não favorece ao jóquei.

 

MotoGP – A estrela cadente

 
Valentino Rossi

Os resultados da temporada 2020 são claros, 66 pontos acumulados, 15º colocado na classificação geral, 6 provas seguidas sem marcar pontos (quedas na segunda prova de Misano, Barcelona, e Le Mans, ficou fora das duas provas de Aragon por ter testado positivo para a Covid, e foi vítima de um problema mecânico na primeira prova em Valência), a despedida de Valentino Rossi da Yamaha não fez jus a sua carreira.

 

Classificação da temporada 2020


Rossi perdeu a vaga para a estrela ascendente de Fábio Quartararo, que foi teve um desempenho brilhante nas provas de Jerez, liderou o campeonato por muito tempo e fracassou depois da etapa de Barcelona (8ª prova) acumulando apenas marca 19 pontos nas 6 últimas provas. Quartararo será companheiro de Maverick Vinales em 2021 enquanto Valentino Rossi se junta à equipe satélite Petronas e dividirá às atenções com Franco Morbidelli, o vice-campeão de 2020, tendo vencido 3 corridas com um protótipo híbrido 2019/2020.

 

Rossi se despede da equipe de fábrica

 

“Vale” chega à Petronas como uma estrela no crepúsculo de sua carreira e seu colega de box é um piloto que está em meio de uma excelente fase de crescimento. A curiosidade geral está centrada em como será o comportamento de Rossi na Petronas. Demarcando limites, o gerente da equipe satélite da Yamaha, Wilco Zeelenberg, foi específico em relação ao que espera do veterano campeão:  “Rossi é uma pessoa importante neste mundo, mas fomos muito claros com ele – As decisões gerenciais são nossas. Ele pode negociar umas poucas pessoas para agregar à equipe, mas a decisão final sempre será da Petronas”. Ele vai ocupar a posição de Quartararo no box e vai ter o mesmo tratamento que Franco Morbidelli. Não é exatamente a função e os privilégios que tinha na equipe oficial do fabricante.

Zeelenberg comentou sobre o processo de decisão da contratação de Valentino, para honrar a promessa da Yamaha oferecer a ele um equipamento competitivo para a temporada de 2021. A dúvida era se a equipe poderia fornecer condições para Valentino obter bons resultados. Havia outros pilotos no mercado, a Petronas não conseguiu decidir sobre um nome específico e a Yamaha havia prometido a Valentino uma moto com versão atualizada e uma posição na equipe. Seria estúpido não considerar esta oportunidade. Zeelenberg acrescentou que todos estão orgulhosos com a possibilidade de trabalhar com Rossi: “É uma honra para toda a equipe. É uma honra ser o gerente ou mecânico da equipe do Valentino. Também será um desafio para a equipe que tentar repetir os resultados obtidos vos últimos dois anos que já alcançamos com o Fabio e Franco”.

A Petronas quer prorrogar com a Dorna (promotora da MotoGP) um contrato para manter duas posições no grid até o final de 2026. Algo lógico é que essa equipe de satélite se saiu muito bem em 2020. Seus patrocinadores ficaram muito felizes porque nesta temporada venceram nada menos que 6 corridas das 14 disputadas.

 

Vinales, Rossi & Morbidelli

MotoGP – Pseudoartrose

 Estima-se que cerca de 5% das fraturas de ossos longos, como o úmero, evoluam para pseudoartrose, termo aplicado para indicar uma situação singular em que a fratura não mostra evidências de progresso no processo de consolidação.


Marc Márquez

Marc Márquez é um atleta valioso, representa muitos interesses comerciais e, quando ficou evidente pela avaliação sequencial das radiografias, que não havia evolução na solidificação de sua fratura, houve a suspeita de uma situação clínica chamada de pseudoartrose, possibilidade mínima (ou mesmo impossibilidade) de consolidação da uma fratura ou osteomia. A situação exigiu uma providência gerencial para reverter o processo.

Como não existe uma informação oficial, uma das hipóteses aventadas foi a estabilização inadequada da fratura com aparelhos externos ou osteossíntese, que pode permitir movimentação excessiva no foco da fratura, dificultando ou impedindo a consolidação. A presença de espaço entre as extremidades da fratura pode ocorrer devido à interposição de tecidos moles, perda óssea ou má posição causada por fragmentos da própria fratura.

Espaços excessivos entre fragmentos não podem ser preenchidos por tecido ósseo. Se uma placa com parafusos mantém um espaço entre os fragmentos ósseos, o osteoblasto é incapaz de se desenvolver, cedendo lugar a tecido cartilaginoso que, preenchendo o espaço, melhora a condição de estabilidade, mas não apresentam a resistência de um osso. Osteoblastos exigem estabilidade perfeita para que os capilares de revascularização possam cruzar as linhas de fratura e facilitar a formação de tecido ósseo. A fixação correta elimina espaços pela redução anatômica e a resulta na compressão adequada dos fragmentos da fratura, ela também elimina a possibilidade de movimento, permitindo a consolidação. Esta é a justificativa para trocar, pela terceira vez, a placa no braço de Márquez. Se a estabilidade for alcançada naturalmente ou for produzida por fixação externa ou interna apropriada, a calcificação da cartilagem será iniciada e possibilita a sua substituição por osso.

Diversos métodos podem ser utilizados como auxiliares no tratamento de uma pseudoartrose como o enxerto ósseo vascularizado nas perdas ósseas (as áreas doadoras mais utilizadas são a crista ilíaca), os materiais de estabilização interna, os estabilizadores externos, além do ultrassom, ondas de choque e campos eletromagnéticos.

Importante, pseudoartrose não é o esgotamento da capacidade biológica do organismo para curar a lesão, deve ser entendida como uma limitação do processo natural de consolidação. As causas possíveis são à instabilidade maior que a capacidade natural do organismo de superar para alcançar a consolidação, ou osso com vascularização insuficiente para a produção de tecido.

O perfil psicológico do paciente é fator importante na decisão sobre as diversas linhas de tratamento das fraturas. O paciente e o médico devem trabalhar juntos para garantir o resultado.

Marc Márquez, recém-operado pela terceira vez, indicou em uma entrevista para o DAZN (serviço de streaming de esportes ao vivo e sob demanda), que reconhece sua parcela de culpa no processo, Como todo piloto, quando saio da sala de operações operação, a primeira coisa que pergunto é quando posso voltar a pilotar. É aí que o médico tem que ser realista. Fui para a segunda prova de Jerez com a paz de espírito confiando na placa. Sou corajoso, mas não inconsequente”. Márquez não entendeu ou não foi alertado que a função da placa é imobilizar a fratura, não substituir o osso. “Aprendi, que os pilotos têm uma virtude que que pode ser interpretada como uma falha, de não avaliar totalmente os riscos envolvidos em todas as situações. Os médicos indicam que, no pior caso, devo estar curado antes do início da temporada. Uma coisa é certa, voltarei quando estiver pronto para correr os mesmos riscos, caso contrário, não faz sentido eu voltar."

 

Ruber International Hospital em Madrid

 

Marc Márquez levou a mala de Madri apenas no caso de ele ter que ficar, como acabou acontecendo. Entrou no Ruber International Hospital, que não consta no circuito habitual das casas de saúde da MotoGP, mas tem um prestígio inquestionável reconhecido pela comunidade médica. Depois de consultar diversos especialistas, incluindo americanos, franceses, britânicos e italianos, escolheu o melhor meio de resolver um problema que persiste a quase meio ano e o impediu-o de treinar (perdeu quatro quilos de massa muscular, está com apenas 61 kg). A colocação de uma nova placa e auto enxerto ósseo (responsável pela longa duração da cirurgia), utilizando seu próprio quadril como doador. Marc está otimista em breve deve voltar para casa (Cervera, ES) e iniciar a sua nova recuperação junto com seu fisioterapeuta particular. A equipe médica garantiu que sua carreira não será comprometida. Marc não quer repetir ou ser encorajado a repetir os erros do passado (retornar em uma semana para a pista, fazer flexões, etc.). Ele vai ter calma, sem pressão, sem pressa, não quer voltar encurtando prazos ou marcando datas.

 

 

Possíveis substitutos

Não há data de retorno de Marc agendada, mas a Honda tem várias ideias sobre como suprir a sua ausencia. E nenhum cenário Alex Marquez está incluído, ele deve participar da pré-temporada com sua nova equipe LCR. O normal seria manter Stefan Bradl, que renovou como piloto de teste. Há uma pequena chance de chamar Andrea Dovizioso, que agora está disponível no mercado. A possibilidade de contar com Cal Crutchlow e Takaaki Nakagami está descartada, o britânico é contratado pela Yamaha e o japonês patrocinado pela companhia petrolífera Idemitsu, que colide com o patrocinador principal patrocinador da Honda, a Repsol.

 

 

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

MotoGP - Line-up provisório da temporada 2021

Equipes e pilotos inscritos para a próxima temporada

 


Observações

 

Lorenzo Savadori, 27, é um dos novatos inscritos na competição. Embora seja um motociclista experimentado, só foi apresentado à principal categoria nas 3 últimas provas de 2020, quando substituiu Bradley Smith na Aprilia e conseguiu finalizar uma única prova, a segunda de Valência onde conseguiu o 18º lugar. Entre 2008 e 2010 competiu na então classe 125cc com uma Aprilia sem, entretanto, conseguir bons resultados. Em 2020 participou do mundial de MotoE com a equipe Trentino Gresini.

 

Os outros estreantes da categoria fizeram seu aprendizado nas categorias de acesso, Luca Marini, 23, o meio-irmão de Valentino Rossi, disputou uma prova da Moto3 em 2013 e uma da Moto2 em 2015 antes de entrar nos mundiais de Moto2 de 2016 a 2020 onde conquistou 6 vitórias e 15 pódios. Sua carreira só deslanchou a partir de 2018 quando mudou para a Sky Racing Team VR46, Marini gé contratado pela equipe independente Esponsorama Racing com uma Ducati.

 

Seu colega de equipe é Enea Bastianini, 22, campeão da Moto2 na temporada passada. Bastianini competiu entre 2014 e 2018 na Moto3, promovido para a Moto2 em 2019 conquistou o título da categoria em 2020. Seu currículo contempla 6 vitórias, 3 na Moto3 e 3 na Moto2.

 

Disputa na Moto2 entre Enea Bastianini & Luca Marini

 

Bastianini e Marini são italianos e substituem os pilotos Tito Rabat (Esponsorama), que se retirou da competição e Johann Zarco (Avintia) que migrou para a Pramac Racing.

O espanhol Jorge Martin, 22, disputou a Moto3 por 4 temporadas entre 2015 e 2018 e foi o campeão da categoria em 2018, antes de ser promovido para a Moto2, Em 2021 deve ocupar um assento na Pramac Racing substituindo Francesco Bagnaia que mudou para a Ducati oficial.

 

A temporada 2021 conta com a ausência de Bradl Smith, Tito Rabat e de pilotos consagrados como o britânico Cal Crutchlow e os italianos Andrea Dovizioso e Andrea Iannone. Embora veterano e competindo regularmente no mundial desde 2006 totalizando 236 participações, Tito Rabat obteve um título da Moto2 em 2014 e uma carreira totalmente apagada nas 5 temporadas que participou da MotoGP.

 

Ancorado em forte patrocínio, Rabat subiu para a principal categoria em 2016 e teve um ano de estreia difícil, mas marcou pontos regularmente, resultados que persistiram em seu segundo ano. Em 2018, mudou-se para a Reale Avintia Racing, tocou a moto Honda pela Ducati e obteve algumas performances impressionantes antes de sua temporada ser interrompida por lesão. Fraturou uma perna em Silverstone e abandonou o resto da temporada. Permaneceu na equipe nos anos seguintes e seu melhor resultado foi um P9 em Barcelona em 2019.

 

Andrea Iannone, o Maniac, estreou na 125cc em 2005, conquistando sua primeira vitória em 2008. Mudou para a Moto2 em 2010 classificando-se em 3º nas duas primeiras temporadas. Em 2012, o Iannore repetiu a 3ª colocação enfrentando adversários como Marc Márquez e Pol Espargaró. Em 2013 subiu para a MotoGP com a equipe Pramac Racing Team. Após resultados consistentes em seu ano de estreia, assumiu um lugar na equipe oficial da Ducati Team por dois anos, conquistando sua primeira vitória no GP da Áustria em 2016 e mostrando agressividade na pista. O italiano foi contratado pela Suzuki Ecstar em 2017 e, após um começo difícil, apresentou resultados em 2018 conquistando alguns pódios impressionantes.

 

Em 2019 Seu primeiro ano com a Aprilia Racing Team Gresini chegou a liderar a corrida na Austrália antes de terminar a P6 e menos de um segundo do pódio. A carreira de Iannone foi interrompida após ter testado positivo em um exame antidoping. Condenado a uma suspensão por 2 anos recorreu, e o resultado foi que a pena foi ampliada para 4 anos. O italiano só pode picotar depois da temporada de 2023.

 

Cal Crutchlow chegou na MotoGP direto da WorldSBK em 2011, onde conquistou o título mundial de 2009. Passou pela Monster Yamaha Tech3 3, em 2014 foi piloto da equipe oficial da Ducati e em 2015 assumiu um assento na LCR Honda.  Em 2016 conquistou a vitória no GP da República Tcheca, encerrando um jejum de 35 anos sem a vitória de um piloto britânico (Barry Sheene na Suécia em 1981). Cal, que dividiu com os pilotos oficiais da Honda a tarefa de desenvolver a RC213V, na temporada de 2021 vai atuar como piloto de testes da Yamaha.

 

Andrea Dovizioso & Cal Crutchlow, ausentes da MotoGP em 2021


Andrea Dovizioso era o segundo piloto mais experiente do grid, sendo superado apenas pelo interminável Valentino Rossi. Nas temporadas de 2019, 2018 e 2017 conseguiu ser aquilo que Ayrton Senna classificou como “o primeiro que perde”, o vice-campeão. Nas pistas desde 2001, o italiano conquistou 1 único mundial, 125cc em 2004. Com 327 participações em GPs, Dovi é o atual recordista em número de pódios com 103. Obteve um total de 24 vitórias em todas as categorias, 15 na MotoGP. E é conhecido como o piloto que recuperou o caminho de vitórias para a fábrica desde a última temporada de Casey Stoner com a Ducati em 2010.

 

Muitos atribuem a falta de brilho na carreira de Andrea Dovizioso, um piloto estratégico, à sua falta de sorte pois o seu melhor momento coincidiu com a ascensão de Marc Márquez

 

A saída de Dovi aparentemente deveu-se a ganância do seu empresário. Seus atritos com o Diretor Técnico Gigi Dall’Igna eram conhecido e inviabilizaram a sua permanência na equipe Ducati, quando Pol Espargaro assinou com a Honda a vaga na KTM foi oferecida para ele, porém a máquina ainda não havia mostrado todo o seu potencial e suas exigências financeiras foram consideradas excessivas pelos austríacos. Andrea Dovizioso afirma que 2021 terá uma temporada sabática, mas poucos acreditam em seu retorno.

MotoGP – Evolução das equipes satélites

 

A última etapa da temporada 2020 da MotoGP em Portimão apresentou, pela primeira vez desde 2004, um pódio formado exclusivamente por pilotos de equipes independentes, as chamadas satélites

 

Pódio de pilotos de equipes independentes em Portimão

 

Foi um detalhe que quase passou despercebido nesta temporada atípica,  a última etapa do Campeonato Mundial de MotoGP de 2020 gerou uma estatística interessante, o pódio ( Miguel OliveiraJack Miller & Franco Morbidelli) foi o primeiro top 3 composto por equipes satélites desde 2004. Talvez o fato mais surpreendente é que não tenha acontecido antes.

Os números da MotoGP em 2020, 14 provas, 9 vencedores diferentes e 15 pilotos no pódio mostram que a categoria está diferente. As razões são múltiplas, um regulamento que privilegia a competitividade, a readequação das características das classes de acesso Moto3 e Moto2 que preparam melhor os pilotos e, principalmente, a mudança do papel exercido pelas equipes independentes. Até pouco tempo as satélites compravam ou alugavam (a relação exata com cada fabricante dependia do tipo de contrato) equipamentos de temporadas anteriores, nos dias atuais representam um recurso a mais utilizado pelas fábricas para coletar dados e testar modificações para desenvolver seus protótipos.   

Petronas SRT Yamaha e Red Bull KTM Tech3 conseguiram suas primeiras vitórias em 2020, a Tech3 conseguiu este feito pela primeira vez após quase duas décadas na disputa. Pramac e LCR estiveram perto do topo nesta temporada, assim como já havia acontecido em anos anteriores.

As satélites com chances de vitória melhoram o espetáculo”, disse Franco Morbidelli, que terminou como segundo colocado na classificação geral, a Yamaha melhor classificada embora utilizasse um equipamento especificação B (chassi 2019) na equipe Petronas SRT Yamaha.

Na MotoGP os pilotos de fábrica têm acesso preferencial aos novos desenvolvimentos e os de equipes independentes estão constantemente tentando mostrar seu potencial para os administradores das fábricas. Estes procedimentos ajudam o aumento do nível de pilotos,  treinam melhor, são mais focados e estão mais atentos aos detalhes porque a competitividade do campeonato é maior.

A Honda Racing Corporation (HRC) que administra a equipe oficial da Honda já divulgou sua decisão de manter a mesma especificação em suas quatro motos inscritas para 2021. Os seus resultados este ano foram muito prejudicados com as lesões de seus principais pilotos, Marc Márquez se acidentou na prova de abertura do mundial e perdeu toda a temporada, Cal Crutchlow passou praticamente o ano recuperando-se de lesões, a defesa da fábrica foi concentrada em um novato (Alex Márquez) e no piloto da equipe satélite LCR, Takaaki Nakagami. A Aprilia informou que deve rodar com quatro equipamentos iguais a partir de 2022 e a Suzuki está avaliando a possibilidade de patrocinar uma equipe independente.

O conceito de equipe satélite deve continuar a existir na acepção mais pura do termo, ou seja, uma segunda equipe com administração autônoma, porém a tendência atual é quatro motos idênticas nas duas equipes. Não era assim, até um passado recente ao terminar uma temporada em Valência os fabricantes repassavam as motos até então utilizadas pelos pilotos oficiais para as independentes e começavam os testes com os protótipos desenvolvidos para a temporada seguinte. As fábricas utilizavam os recursos das equipes satélites para testar pilotos ou fazer caixa com condutores que dispunham de patrocinadores poderosos ($), sempre com máquinas de 1 ou até 2 anos de idade.

 

Lucio Cechinello, administrador da LCR, pede calma para Cal Crutchlow em Phillip Island (2016)

 

No meio da segunda década deste século a engenharia da Honda tinha um grande problema, seus 2 pilotos (Marc Márquez & Dani Pedrosa) eram ótimos, mas nunca conheceram outra máquina além das fornecidas pelo fabricante, não tendo termos de comparação com os concorrentes. Assim a Honda decidiu fornecer para Cal Crutchlow, piloto da LCR e que já tinha experiência com Yamaha (Tech3 de 2011 a 2013) e Ducati (oficial em 2014) um protótipo atualizado e incluir o piloto em seu programa de testes. A iniciativa teve êxito e em 2016 Cal conseguiu as primeiras vitórias para a LCR na MotoGP ao vencer as etapas da República Tcheca e Austrália. As vitórias de Crutchlow mostraram a vantagem de ter mais motos na pista coletando dados e pilotos com experiências diferentes fazendo sugestões.

A estratégia foi rapidamente replicada e logo todos os fabricantes tinham pelo menos uma máquina com especificação atualizada em suas equipes satélite. A KTM ousou mais e em 2019 prometeu máquinas idênticas para as equipes oficial e independente Tech3. A Ducati seguiu o exemplo em 2020 com Miller e Pecco Bagnaia na Pramac Racing com GP20. A Yamaha forneceu para Petronas um modelo 2020 da M1 para Fabio Quartararo, enquanto a moto de Franco Morbidelli é efetivamente um híbrido do chassi de 2019 com algumas inovações desenvolvidas para 2020.

Embora os problemas com o desenvolvimento e fornecimento de peças significassem que a promessa de máquinas idênticas da KTM à Tech 3, principal razão para a equipe encerrar a relação de duas décadas com a Yamaha em 2019, não era totalmente aplicável até 2020, a 2ª vitória de Oliveira na temporada nas 3 obtidas pela KTM é uma indicação que a abordagem de motos iguais pode causar algum impacto.

Jack Miller inaugurou a nova era recente de pilotos de satélites vencendo corridas com seu sucesso no Assen TT de 2016, embora com um modelo Honda de um ano anterior. Miller passou 6 temporadas em equipes independentes antes de ser promovido para a equipe Ducati Corse em 2021, o australiano acredita que a mudança no relacionamento oficial/satélite trouxe um enorme benefício para as equipes e público em geral.

Inicialmente foi a Honda fornecendo um equipamento atualizado para Cal, depois foi a Ducati promovendo em 2017 uma disputa entre Danilo Petrucci e Scott Redding na Pramac Racing para ver quem receberia uma moto atualizada na fábrica. A última prova da temporada 2020 terminou com 3 pilotos de equipes não-fábrica no pódio, dois deles com equipamentos atualizados (Miguel Oliveira e Jack Miller) e um e (Franco Morbidelli) com um equipamento híbrido. É impressionante como a competitividade da MotoGP cresceu com o maior apoio para as equipes satélites.

 

                         Miguel Oliveira confraterniza com Franco Morbidelli em Portimão 


O futuro das equipes independentes depende das motivações dos fabricantes, se como extensões próximas benéficas aos seus esforços de desenvolvimento ou seu sucesso como um possívvel vendo a equipe, da qual é o principal patrocinador e empresta a marca (Monster Energy Yamaha) sendo constantemente superada pela Petronas SRT.

 

Primeiro título mundial de Rossi obtido por uma equipe satélite


A verdade é que não há uma definição clara do que é especificação A ou B. Depois de 19 anos da conquista do primeiro mundial de 500cc por Valentino Rossi pilotando para a independente Nastro Azzurro Honda, a temporada de 2021 tem amplas possibilidades de coroar um piloto de uma satélite como campeão.

Para as equipes que tentam definir suas equipes de fábrica e satélite no novo ciclo de contratos a partir de 2022 é mais provável que adicione em vez de tirar, incluindo uma terceira moto para a Aprilia com duas na equipe de fábrica e uma da satélite Aprilia Racing Team Gresini.

A partir de 2022, podemos ver a Yamaha e a Honda com envolvimento ainda maior com suas associadas independentes, inclusive vistas como um local para pilotos em ascensão.

Não se pode esquecer que o Campeonato Mundial de MotoGP de 2020 foi conquistado pela Suzuki, uma equipe que aparentemente se beneficiou de focar em apenas acertar duas motos. talvez esse seja o caminho a seguir...