segunda-feira, 14 de março de 2016

WSBK - Depois de Duas Etapas

Jonathan Rea & Tom Sykes - Tailândia 2015

Uma característica fascinante do motociclismo esportivo é o fato de dois pilotos com estilos diferentes, por vezes com equipamentos produzidos por fábricas diferentes, conseguirem percorrer uma pista de 5 km com apenas uma fração de segundo de diferença entre si. Este é o cerne da competição motorizada, detalhes técnicos, competência e talento fazem a diferença. Uma disputa equilibrada nas pistas, com alternância de vencedores, valoriza o espetáculo, aumenta o público nos circuitos e a exposição na mídia.
A dupla vitória de Jonathan Rea na prova de abertura do mundial de SuperBike na Austrália foi considerada circunstancial. Na primeira prova Chaz Davies errou a tomada da última curva na última volta e foi ultrapassado a poucos metros da bandeirada, na segunda o mesmo piloto caiu sozinho com sua Ducati enquanto liderava, cedendo a vitória também na última volta. Em ambas as provas o holandês Michael van der Mark com uma Honda acompanhou o bloco da frente e cruzou a linha de chegada a menos de um segundo do vencedor. Um início de campeonato promissor.
Com o precedente de Phillip Island, a expectativa para a etapa da Tailândia eram provas muito competitivas, principalmente depois que van der Mark conquistou a pole e a diferença entre o primeiro e o oitavo lugar no grid da primeira prova foi inferior a 1 segundo.  Depois da largada ainda houve alguma disputa até o holandês errar em uma curva e se atrasar, então o espetáculo virou uma briga caseira entre as Kawasaki com a vitória de Jonathan Rea sobre Tom Sykes. O terceiro colocado da primeira prova, a Honda de Michael van der Mark, ficou a absurdos 9.623s do líder. Em provas de SuperBike, 9.623s é uma eternidade, equivalente a uma distância de mais de 400m na pista.
A prova de domingo foi uma reedição do sábado, a disputa entre as duas Kawasaki acrescida da participação coadjuvante da Ducati de Chaz Davies, que não brigou pela liderança, mas permaneceu perto aos líderes até a bandeirada final. A vitória foi de Tom Sykes, seguido pelo campeão de 2015 Jonathan Rea.
O resultado das provas disputadas no circuito de Chang acendeu um alerta no mundo da SuperBike, a possibilidade de que o mundial de 2016 se limite a uma disputa exclusiva entre pilotos da mesma equipe, uma reedição do que tem acontecido na Fórmula 1 nos últimos anos. A Kawasaki venceu 18 das 26 provas da temporada de 2015 e as 4 disputadas este ano. Em termos de campeonato depois de duas etapas, quatro provas, Jonathan Rea da Kawasaki Racing Team acumula 95 pontos, seu colega de equipe Tom Sykes tem 66, Michael van der Mark da Honda Racing 65, Chaz Davies da Aruba.it Ducati Racing 55 e Sylvain Guintoli da PATA Crescent Yamaha completa os atuais cinco primeiros com 40 pontos.
A próxima etapa está programada para de 1 a 3 de abril, em Aragon. O comportamento das motos da SuperBike varia com as características da pista, topologia, traçado, asfalto mais ou menos abrasivo e com maior ou menor aderência influenciam muito o desgaste de pneus e equilíbrio ao atacar uma curva ou retomar velocidade. O piso e o desenho da pista da Austrália equalizaram o desempenho entre as equipes, o circuito de Chang  favoreceu as Kawasaki, Aragon promete uma disputa mais equilibrada.
Se houver uma supremacia das Kawasaki a temporada pode adquirir uma previsibilidade que torna os espetáculos monótonos, afasta patrocinadores a não estimula outros participantes, lembrando que ninguém quer ser coadjuvante em um campeonato mundial que é reconhecido por eleger a melhor SuperBike que pode ser adquirida no mercado.


Publicado no site  www.autoracing.com.br em 16/03/2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

MotoGP - Valentino diz que foi traído por Marc Marques



Valentino Rossi ainda não assimilou os acontecimentos do final da temporada passada e alimenta um sentimento que foi traído por Marc Márquez, a ponto de classificar os danos causados à sua relação entre eles como irreparáveis.
Duas das maiores estrelas do esporte entraram em confronto diversas vezes durante a temporada de 2015 e a rivalidade ficou escancarada na conferência de imprensa que precedeu ao GP da Malásia, quando Rossi acusou Márquez de intencionalmente prejudicar a sua corrida em Phillip Island para tentar ajudar rival do italiano, o também espanhol Jorge Lorenzo.
Durante a corrida em Sepang houve um incidente entre os dois na pista, que resultou na queda de Márquez e punição para Valentino, obrigado a largar na prova decisiva de Valência no último lugar do grid. O nove vezes campeão do mundo na categoria máxima do motociclismo foi incapaz de alcançar os líderes e permitiu ao seu companheiro de equipe vencer a corrida (à frente de Márquez) e levar o título mundial.
O recesso de inverno não foi suficiente para reduzir as tensões e os dois pilotos estão preparados para reencontrarem-se nas pistas, Rossi sente que ele e Márquez nunca mais serão amigos depois de ter sido “enganado” pelo espanhol.
“Não tem como voltar a ter algum relacionamento” declarou Rossi em uma recente entrevista para a publicação italiana “Gazzetta World”. “No entanto, devemos ser adversários na pista nos próximos anos, espero, deve prevalecer o respeito mútuo. Isto é importante”.
O “doutor”, que afirmou recentemente que sua controversa explosão pré-Sepang foi uma tentativa de pedir a intervenção da Direção de Corridas e acrescentou:
"Antes de qualquer coisa, eu me permiti ser enganado por Márquez. Ele realmente me traiu. Ele dizia que era um fã, mas era tudo mentira. Quase acreditei nele e estava pronto para ter uma rivalidade sadia na pista. Em Assen percebi que ele era apenas meu amigo quando conseguia me vencer". (Nota do redator – Esta afirmação não faz sentido. A vitória de Valentino Rossi sobre Marc Márquez no GP da Holanda foi disputada até os últimos metros, a Honda de Márquez posicionou-se melhor no traçado da curva da chicane antes da reta de chegada e Rossi atalhou por fora da pista para cruzar a linha em primeiro lugar. No reservado para os pilotos depois da prova os dois comemoraram juntos o fim de uma corrida eletrizante).
 
Assen 2015 - Última Chicane
 
Quando perguntado sobre uma recente postagem no Twitter com fotos de Senna e Prost, Rossi fez referência a um ato indigno de vingança na pista, protagonizado pelo brasileiro:
“Nunca gostei do Senna enquanto corria. Torcia para Mansell e, quando ele mudou para a Ferrari, para Prost. Mas adorei o que ele fez em Suzuka em 1990 [Ayrton Senna deliberadamente bateu na traseira da Ferrari de Alain Prost na curva 1 de Suzuka, tirando os dois da corrida e, consequentemente, conquistando o título mundial]. Ele fez o que tinha que fazer. Mostrou ter personalidade”.
Márquez sempre negou ter favorecido Lorenzo na última temporada.
Os pilotos vão estar frente a frente na conferência de imprensa que precede a primeira prova da temporada 2016 na próxima quarta-feira, acompanhados de Lorenzo, Dani Pedrosa da Honda, Andrea Ianone da Ducati e Maverick Vinales da Suzuki. Será a primeira vez que Rossi e Márques compartilharão um mesmo ambiente e existe ainda uma grande expectativa sobre o que vai ocorrer na pista.
Perguntado sobre seus planos para o futuro, o piloto de 37 anos confirmou que irá avaliar a sua competitividade nas rodadas de abertura da atual temporada e, se tudo correr bem, assinar outro contrato de dois anos com a Yamaha.
Com o excelente desempenho da M1 nos testes de inverno, com os novos pneus Michelin e ECU unificada, Rossi afirma que a tendência é continuar.
"Vou levar cinco ou seis corridas [para avaliar seu próprio desempenho], mas estou convencido de que vou passar os próximos anos com a Yamaha", disse ele. "Será o suficiente enquanto meus cabelos estão embranquecendo. No entanto, com 39 eu poderia participar de algumas corridas como as 24 Horas de Le Mans ou o Rally Dakar ".
 
 
 

 



quinta-feira, 10 de março de 2016

WSBK - Etapa 2, Tailândia




 
A segunda etapa do mundial de SuperBike vai ser realizada neste final de semana no Circuito Internacional de Buriram, Tailândia, também chamado de Circuito Internacional de Chang por sua construção ter sido financiada pela cerveja Chang em 2014. A primeira prova do mundial de SuperBike no circuito foi realizada no ano passado, com uma dupla vitória de Jonathan Rea.

Rea, piloto da Irlanda do Norte, dominou completamente o campeonato do ano passado e iniciou 2016 vencendo as duas provas de Phillip Island, porém não foram vitórias tranquilas. A primeira corrida foi decidida na última curva da última volta, Rea com uma Kawasaki ZX 10R conseguiu ultrapassar a Ducati 1199 Panigale R de Chaz Davies a poucos metros do final, a diferença cronometrada entre eles foi de apenas 0,063 seg. Na segunda prova Rea herdou a liderança na última volta graças a uma queda de Davies. Em uma indicação inequívoca do grau de competitividade da SuperBike atual, seis fabricantes classificaram seus equipamentos nos “Top Ten” das duas corridas e pilotos da Kawasaki, Ducati e Honda compartilharam o pódio em ambas as provas.

Jonathan Rea é a bola da vez, o homem a ser batido, e a principal ameaça é o britânico e companheiro de equipe, Tom Sykes, campeão de 2013 e que não foi feliz na Austrália. Na corrida pelo campeonato o holandês Michael van der Mark, da equipe oficial da Honda, está apenas 14 pontos atrás e seu desempenho com a CBR1000 SP em Phillip Island o credencia como postulante ao título. Seu colega de equipe, Nicky Hayden, estreou na categoria este ano e mostrou muito progresso da primeira para a segunda prova na etapa inicial.  

A dupla da Ducati Chaz Davies e Davide Giugliano também se apresenta como candidata ao título defendido por Rea. Giugliano ainda não correu no circuito de Chang, ficou fora o ano passado por problemas físicos, espera um desempenho melhor que o terceiro e quarto lugares obtidos na Austrália. Chaz Davies, que perdeu a liderança nos instantes finais da primeira prova em Phillip Island e caiu inexplicavelmente quando liderava a segunda está ansioso para iniciar a sua recuperação. Ambos estão confiantes no desempenho e confiabilidade da Ducati 1199 Panigale R.

Em seu regresso à SuperBike, a Yamaha YZF R1 conduzida pelo ex-campeão (2014) Syslvain Guintoli registrou um desempenho razoável (sexto e quinto locado) na primeira etapa. Os pilotos da BMW, MV Agusta e Aprilia também aguardam a oportunidade de mostrar que estão competindo para vencer, não para fazer número no grid.

A novidade no grip do GP da Tailândia é a presença de dois pilotos locais, Sahustchai Kaewjaturaporn com uma Kawasaki, substituindo o australiano Josh Hook acidentado na etapa anterior e Anucha Nakcharoensri com uma YZF R1 da equipe Yamaha Thailand Racing.

A largada das provas está prevista para as 16:00 hs locais (04:00 hs no Brasil) de sábado, prova 1 e 24 horas depois a prova 2.

MotoGP - Ducati Desmosedici

Desmosedici GP16


Ao longo dos 67 anos de disputas mundiais de motocicletas a Ducati nunca foi uma força expressiva. Historicamente, contabilizando todas as categorias, a fábrica de Bolonha conseguiu um único título mundial de construtores e apenas 38 vitórias, 23 obtidas entre 2007 e 2010 pelo australiano Casey Stoner.

A Ducati foi fundada no início dos anos 20 e severamente afetada pela segunda grande guerra, suas instalações em Bolonha, Itália, foram arrasadas por bombardeios aliados e no esforço de recuperação a empresa entrou no mercado de motocicletas com o lançamento em 1946 da “Cucciolo”, uma bicicleta motorizada.

A empresa italiana encontrou no esporte uma maneira de mostrar a qualidade de seus produtos, participou e venceu nos anos seguintes de diversas provas de velocidade e resistência em estradas como a corrida entre Milão-Taranto (960 km) e Volta da Itália. No final de 1956 a linha de produção contava com as motos Tourist 174, Special e Sport, modelos com motores de quatro tempos capazes de performances consideráveis, respectivamente 110, 120 e 135 km/h. Em 1958 a Ducati produziu a 200cc "Elite", que introduziu o sistema desmodrômico de acionamento de válvulas.  Este projeto evoluiu para um protótipo de 250cc que, pilotado por Mike Hailwood, fez algum sucesso nas pistas no início dos anos 60.

O surgimento das japonesas Yamaha e Suzuki com os motores de dois tempos de alto desempenho afastaram a Ducati das provas no início dos anos 70. Durante muitos anos os motores que dominaram a classe de 500cc foram de dois tempos, tecnologia distante da utilizada nas motos industrializadas para comercialização pela fábrica italiana, centrada em motores de 4 tempos. Em 2002 a FIM e a Dorna promoveram uma mudança radical nos regulamentos técnicos do mundial de motovelocidade, com privilégios para motores de 4 tempos e transformando a antiga classe 500cc no mundial de MotoGP, criando um ambiente propício para o retorno da fábrica às pistas. Entre 2002 e 2006 o regulamento contemplou motores 4 tempos limitados a 990cc, a partir de 2007 houve uma redução para 800cc e desde 2012 o limite de cilindrada máxima foi fixado em 1000cc.

Em tecnologia de motores, a palavra desmodrômica é utilizada para indicar mecanismos que têm controles de acionamento diferentes em sentidos diversos. As válvulas de um motor de quatro tempos abrem para permitir a entrada da mistura ar/combustível no cilindro, fecham durante os tempos de compressão e explosão, e abrem para o escape dos gases da combustão. Em um projeto convencional o comando de abertura da válvula é realizado por um excêntrico e o fechamento por uma mola de retorno. Um motor com válvulas desmodrômicas contempla dois excêntricos e dois atuadores para abertura e fechamento, sem mola de retorno.

Historicamente os projetos de motores da Ducati utilizam cilindros montados em ângulo de 90 graus (V-twins ou L-twins) com tecnologia desmodrômica para comando de válvulas. A fábrica considerou inicialmente a possibilidade de desenvolver um motor “Super-Twin” para explorar uma facilidade prevista no regulamento, que permitia às máquinas de dois cilindros uma redução de peso considerável em relação às motos de quatro, cinco ou seis cilindros, no entanto as análises da  equipe de engenharia indicaram que um motor de dois cilindros não seria capaz de produzir a quantidade necessária de energia, mais de 230 hp, sem elevar consideravelmente o número de rpms (rotações por minuto), criando problemas extras de dissipação de calor e confiabilidade. 

A base do projeto do motor Ducati são quatro cilindros dispostos em V. Cada cilindro é equipado com 4 válvulas (totalizando 16) com tecnologia desmodrômica. O nome “Desmosedici” dos protótipos de competição é resultado de uma abreviação de “dezesseis válvulas com controle desmodrômico” em italiano.

A fábrica de Bolonha viveu seu melhor momento quando o regulamento geral de competições reduziu a capacidade dos motores de 990cc para 800cc. A Ducati conseguiu produzir motor que entrega 225hp em 19.000 rpms, que na pista resulta em velocidades acima dos 330 km/h.  Este propulsor combinado com o talento de Casey Stoner garantiu o primeiro e até agora único título mundial de MotoGP para a equipe italiana. Em 2007 o piloto australiano venceu dez corridas e seu companheiro de equipe, Lóris Capirossi, uma. Nos anos seguintes o número de vitórias foi escasseando até que, em uma manobra ousada, a Ducati contratou para 2011 e 2012 o multicampeão Valentino Rossi apostando em uma dupla “puro sangue”, piloto e máquina italianos. Apesar da inegável competência Rossi, os resultados foram pífios e o melhor que a equipe conseguiu foram dois segundos lugares nas duas temporadas.

A Ducati, controlada desde 2012 pela Audi, é a fábrica que vai alinhar o maior número de equipamentos no grid de largada da temporada de 2016 da MotoGP, oito ao todo, com três especificações de motor, GP14.2 (Avintia Racing & Aspar), GP15 (Octo Pramac Yakhnich) e GP16 para os pilotos oficiais de fábrica. A Honda tem inscritos cinco pilotos, a Yamaha 4, Aprilia e Suzuki dois cada.

Em tempo, Panigale, o nome do modelo das motos que disputam a SuperBike, é o do bairro de Bolonha onde está localizada a fábrica da Ducati.
 
 
Publicado no site  www.autoracing.com.br em 09/03/2016

domingo, 6 de março de 2016

MotoGP - Apostem no Cavalo


“Antigo provérbio chinês: Se o cavalo vencer uma vez pode ser sorte, se vencer duas pode ser coincidência, se vencer a terceira vez, apostem no cavalo”



Maverick Vinales & Aleix Spargaro com a Suzuki GSX-RR

O sucesso da Suzuki GSX-RR de Maverick Vinales nos dois dias de testes em novembro do ano passada no circuito de Valência foi atribuído ao fato da equipe ser egressa da classe Open e já ter experiência com o pacote eletrônico. Nos dois dias que marcaram também a troca do fornecedor exclusivo de pneus, o melhor tempo foi obtido pela Honda RC213V de Marc Márquez e Vinales ficou apenas 0.103s atrás. A Suzuki Aleix Espargaro, companheiro de equipe de Vinales, encerrou o período de testes 0.152s atrás do líder.


Depois do inverno europeu, as equipes se reuniram para três dias de testes em Sepang no início de fevereiro, etapa que foi totalmente dominada pela Yamaha M1 de Jorge Lorenzo e os resultados de Vinales não impressionaram.


A sequência dos testes pré-temporada em Phillip Island no meio de fevereiro confirmou o desenvolvimento consistente da Suzuki, e Vinales encerrou os três dias com o melhor tempo. O espanhol declarou na ocasião que estava seguro que conseguiria obter um tempo ainda melhor, desejo que foi abortado por uma queda que avariou o quadro da sua moto.

O terceiro e último teste foi programado para o palco da abertura da temporada, o circuito de Losail no Qatar, e confirmou a dupla Suzuki/Vinales como as revelações da pré-temporada, Vinales liderou os tempos no dia dois e foi terceiro no dia três, meio segundo atrás de Lorenzo. A GSX-RR,  que durante todo o ano passado sofreu com a falta de potência, está muito próxima das Ducati, Honda e Yamaha em termos de velocidade final. Vinales está confortável com os pneus Michelin e o pacote eletrônico,  a fábrica sediada em Hamamatsu no Japão melhorou o desempenho do motor e apresentou o seu desenvolvimento de uma caixa de câmbio “seamless.” A desenvoltura de Vinales ainda não está sendo acompanhada por seu companheiro de equipe, Aleix Spargaro, mas a equipe está confiante que é só uma questão de tempo.

Suzuki e Aprilia são as duas equipes que, nesta temporada, estão beneficiados com o regime de concessões previsto no regulamento. Um fabricante é elegível ao regime de concessões se não obteve, cumulativamente à temporada de 2015, 6 pontos de concessão em provas do campeonato com a pista seca. Os pontos de concessão são contabilizados atribuindo 3 pontos para o primeiro colocado, 2 para o segundo e 1 para o terceiro. As equipes fora do regime de concessões podem utilizar até 7 motores na temporada, o desenvolvimento é congelado a partir da primeira prova e são permitidas até 5 datas para testes privados. As fábricas enquadradas no regime de concessões podem utilizar até 9 motores por temporada, o desenvolvimento é permitido (não congelado) e não há limites para testes privados, lembrando que assim que a equipe obtenha resultados de pista equivalentes a seis pontos de concessão as vantagens são canceladas.

Sem ter acesso à agenda das fábricas para os períodos de testes é complicado formar um quadro geral baseado unicamente nos resultados de pista. Se a única variável analisada for os tempos por volta, na Yamaha Jorge Lorenzo sistematicamente obteve resultados melhores que os de Valentino Rossi, embora o piloto italiano tenha anunciado duas vezes que cabia a ele  fazer o trabalho sujo, o que quer que isto signifique. As motos oficiais da Ducati não impressionaram nas três sessões deste ano, entretanto o britânico Scott Redding com uma Desmosedici GP15 da equipe satélite Octo Pramac Yakhnich conseguiu um excelente resultado no Qatar, melhor que as GP16 de fábrica. O bicampeão do mundo da Marc Marques alternou períodos de euforia com profundo desânimo após ter reclamado muito de problemas de retomada de velocidade nas saídas de curvas. O espanhol da Repsol Honda encerrou o período de testes otimista, avaliando que pode brigar por uma posição do pódio na prova de abertura, mas sua confiança não é tanta para o resto da temporada porque o comportamento da RC213V depende muito do tipo de pista.

Seguindo o ensinamento dos chineses, Maverick Vinales é uma boa aposta para estar no pódio nas primeiras provas de 2016. Para toda a temporada os prognósticos podem não ser tão otimistas, não há como negar a capacidade da Yamaha de fornecer bons equipamentos para seus pilotos e o poder de recuperação da Honda.  Marc Márquez confessou não estar otimista para as provas das Termas do Rio Hondo (Argentina) e Austin, nos EUA, porém acredita que a Honda possa fornecer a ele, Dani Pedrosa, e aos pilotos das satélites Cal Crutchlow, Tito Rabat e Jack Miller um equipamento bem mais competitivo a partir da prova de Jerez no final de abril.

Publicado no site  www.autoracing.com.br em 14/03/2016
 

quinta-feira, 3 de março de 2016

MotoGP - O Império Contra-Ataca




Nunca houve na história da MotoGP uma corrida que tenha atraído tanta atenção da mídia como o GP de Valência, última prova do mundial de 2015. Todos os ingressos para espectadores no circuito foram vendidos, a cobertura ao vivo na TV e internet bateu recordes de audiência, um número inédito de credenciais para a imprensa foi emitido e a houve uma cobertura intensa nos dias que antecederam e sucederam o evento por parte de sites e mídia impressa. Não foi pelo fato da prova ser decisiva para coroar o campeão do mundo, em 2013 a disputa entre o campeão de 2012 Jorge Lorenzo e o desafiante Marc Márquez foi realizada no mesmo cenário sem tanta repercussão. A origem de tanto interesse foi a chance inédita de Valentino Rossi igualar-se ao seu compatriota Giacomo Agostini em número de títulos mundiais, dez ao todo, e foi potencializada pelo que se convencionou chamar no ambiente da MotoGP de “Incidente em Sepang”.

As últimas provas do mundial de 2015 registraram uma disputa intensa entre Jorge Lorenzo e Valentino Rossi. Na corrida de Phillip Island os dois pilotos da Yamaha, juntamente com Andrea Iannone da Ducati e Marc Márquez da Honda protagonizaram um espetáculo eletrizante ao disputarem as primeiras colocações metro a metro durante toda a prova. O vencedor foi Marc Márquez que ultrapassou Lorenzo a duas curvas do final, e na última volta Andrea Iannone consolidou a terceira colocação na frente de Valentino Rossi. Em termos de campeonato, a vantagem de Rossi que era até então de 18 pontos foi reduzida para 11, faltando duas provas para o encerramento da temporada. Desta corrida, considerada por muitos a mais disputada da história da MotoGP, ficou registrada uma imagem de Valentino Rossi na pista cumprimentando Marc Márquez após o final da prova.


Marc Márquez e Valentino Rossi - Austrália 2015


Nos dias que se seguiram Rossi acusou Márquez de, intencionalmente, prejudicá-lo na pista para favorecer o também espanhol Lorenzo na disputa do mundial. Em função do próprio resultado da corrida soou estranho e, para quem tem sangue com alta octanagem nas veias, inverossímil. Afinal, quem de sã consciência acreditaria se Nelson Piquet fosse acusado de prejudicar Alain Prost para favorecer Senna ou, em contrapartida, se algum tabloide britânico estampasse manchetes que Ayrton Senna estaria tentando dificultar a vida de Nigel Mansel na pista para beneficiar seu compatriota Nelson Piquet. Não tem lógica. Mas com ou sem lógica o ambiente ficou acirrado e resultou, na disputa da Malásia, em um incidente que culminou com a queda do piloto da Honda e penalização do aspirante ao décimo campeonato. Não vem ao caso discutir quem foi o culpado e quem foi vítima, o importante é que a penalização imposta a Valentino Rossi lhe custou o título de 2015.
Penalização é sempre controversa. Em 2005 no Japão, em uma prova da 250cc, Jorge Lorenzo em uma manobra irresponsável derrubou Alex de Angelis e foi banido da prova seguinte, até hoje ele reconhece que cometeu um erro e reclama contra o excesso de rigor da punição. No GP da França de 2011 Marco Simoncelli entendeu que a pista era só dele e causou a queda de Dani Pedrosa, foi penalizado com um drivethrough e perdeu a chance do que seria o seu primeiro pódio.
O sistema de penalizações em vigor até a última temporada foi criado em 2013, com o campeonato em andamento, para tentar conter a impetuosidade do então estreante Marc Márquez. A direção de prova introduziu um sistema de sanções, espelhado nas existentes em habilitações para dirigir, com pontos atribuídos por condução perigosa. Marc Márquez os obrigou a criar um sistema de pontos porque andava constantemente no fio da navalha que separa o arrojo e impetuosidade da irresponsabilidade, e havia a necessidade uma forma de responsabilizá-lo. O sistema seguiu o modelo das licenças de habilitação, os avisos verbais foram transformados em pontos, quando o piloto acumula quatro pontos vai para o fundo do grid.
O Código Disciplinar que consta no Regulamento Geral da MotoGP para 2016 foi alterado recentemente. Pilotos que acumularem dez pontos de penalizações durante um ano civil estarão automaticamente banidos da prova seguinte. Em tempo, nunca houve na história da MotoGP um piloto que tenha alcançado esta marca, entretanto novas condições foram adicionadas aos regulamentos desportivos prevendo advertências (e pontuação) para pilotos e equipes que faltarem aos compromissos sociais marcados pelos organizadores, fizerem declarações ou emitirem comunicados de imprensa que possam ser considerados irresponsáveis ou prejudiciais para a competição.
Estas cláusulas são resultado do Incidente em Sepang. A Dorna, entidade que controla os direitos comerciais da MotoGP, entendeu que a promoção da corrida de Valência não foi boa para os negócios e a polarização entre italianos e espanhóis pode eventualmente afastar potenciais patrocinadores, além dos ânimos acirrados preocuparem os organizadores com a segurança da multidão presente no circuito. A mídia, principalmente a italiana, continuou por muito tempo maculando a lisura da competição.
A decisão recente implica que as sanções anteriores quando um piloto era penalizado com quatro pontos (largar no final do grid) e sete pontos (largar do pit lane) não existem mais. Se esta regra estivesse em vigor no final da temporada passada, Valentino Rossi não teria sido obrigado a largar no final do grid na prova decisiva de Valência.
Entretanto Rossi poderia ter sido punido de outra forma. Pela regra atual a direção de prova pode optar por uma ou mais das seguintes sanções: acumular pontos; devolver a posição em ultrapassagens; drivethrough; posições no grid da próxima corrida; soma de tempo; desqualificação; retirada de pontos no campeonato e suspensão. Como é improvável que um piloto acumule dez pontos em um ano civil, é lícito imaginar que estes tipos de punições sejam aplicados na próxima temporada. A motivação do recém criado Painel de Comissários FIM parece ser aplicar as punições durante a prova onde a infração ocorre.
A mudança do sistema de penalizações foi necessária para esclarecer dúvidas relacionadas com a versão provisória de janeiro de 2016, que indicava que a penalização de largar no final do grid ou passagem pelo pit lane seria aplicada uma única vez até o piloto chegar a dez pontos. A confusão foi criada em relação a utilização de ano civil como período de contagem.
Outra novidade do regulamento foi criar um mecanismo para reprimir o que os organizadores entendem ser “comentários irresponsáveis”, como os que conspurcaram a decisão da temporada passada. A Fórmula 1 tem uma regra semelhante para punir equipes e pilotos que contribuam para o descrédito do campeonato, que nunca foi utilizada. O grande problema neste ponto em particular é a subjetividade do que pode ser considerado “irresponsável ou prejudicial” à competição e também não está claro qual o tipo de punição que pode ser aplicada. A nova condição foi incluída nos regulamentos para impor um limite às críticas de equipes e pilotos em pronunciamentos públicos, porém não pretende proibir expressões responsáveis ​​de discordância legítima com a gestão, organizadores e/ou políticas da MotoGP. Simplificando, as opiniões fortes expressadas por Honda, Yamaha, Repsol e pilotos após as corridas de Sepang e Valência provavelmente não serão repetidas.
Pilotos de MotoGP têm egos enormes. Não pode ser diferente, pessoas que andam em círculos em velocidades alucinantes, com a certeza que a menor desatenção resulta em quedas, necessariamente tem autoestima e autocontrole diferenciados. Na outra face da moeda a Dorna administra um negócio lucrativo onde qualquer manifestação de pilotos ou equipes com potencial de macular a lisura do mundial de MotoGP, como foram os acontecimentos pré e pós o Incidente em Sepang, é ruim para os negócios.
As alterações no regulamento geral da competição instrumentalizaram a organizadora com ferramentas para controlar e aplicar sanções quando for identificado algum desvio.
 

Publicado no site  www.autoracing.com.br em 04/03/2016