quinta-feira, 1 de outubro de 2020

MotoGP - Rossi na Petronas: poderia ser uma promoção?

 

Texto adaptado de um original de Mat Oxley

 

Em tese, a mudança de Valentino Rossi da equipe de fábrica da Yamaha para a independente é um rebaixamento, mas tem suas vantagens.

O staff de Valentino Rossi, que será desfeito em 2021

 

A maior notícia do fim de semana do GP da Catalunha não foi uma novidade. Depois de 21 anos como piloto de fábrica da Aprilia, Honda, Yamaha & Ducati, o sete vezes Campeão do Mundo da Valentino Rossi finalmente vai ser rebaixado para uma equipe independente em 2021.

Tinha que acontecer. O tempo passa para todos, a carreira de um piloto bem-sucedido como Rossi só poderia terminar de duas maneiras, aposentadoria ou rebaixamento para uma equipe independente, por que as equipes oficiais de fábrica precisam de contratos com pilotos rápidos e com futuro pela frente.

Todas as carreiras profissionais, inclusive as de pilotos da MotoGP são como montanhas. Uma subida até o topo, tentar se manter em cima o máximo possível e descendo, com o corpo vencido pelo esforço ou recebendo os aplausos da multidão a cada passo para baixo.

A montanha de Rossi tem sido mais um platô, ele tem estado em um patamar elevado ao longo de duas décadas ou mais, porém  ele tem que começar sua descida para se juntar aos que vivem em um nível mais baixo.

Os pilotos de fábrica começam cada com a rotina de coletar dados e adequar o equipamento. Motos antigas têm a vantagem de ter, pelo menos, uma temporada completa de melhorias já implementadas.

A grande questão é se uma mudança para a Petronas Yamaha SRT pode ser considerada um rebaixamento. Em tese sim. O contrato de Valentino permanece com a Yamaha, então ele é um piloto de fábrica, mas ele foi colocado em uma equipe independente, a exemplo do que são os contratos da Ducati/Pramac de Jack Miller e o da HRC/LRC de Cal Crutchlow. Rossi vai iniciar a temporada de 2021 com uma YZR-M1 de fábrica completa, mas todas as inovações e atualizações que forem desenvolvidas irão prioritariamente para as motos de Maverick Vinales e Fabio Quartararo. Não é necessariamente uma coisa ruim. Pode inclusive ser uma vantagem.

A lógica simples é que uma oferta regular de desenvolvimentos de hardware e software da fábrica ajuda aos pilotos melhorar constantemente seu desempenho. Nem sempre é assim. Na segunda década do século XXI não existe mais a bala de prata, a possibilidade de uma alteração que traga uma melhoria instantânea que tenha resultados palpáveis no desempenho dos equipamentos.  As motos são muito próximas do estado da arte, cada novo componente deve ser analisado em detalhe pela coleta constante de dados. Se uma peça oferece uma vantagem infinitesimal em uma área, pode muito bem prejudicar em outra. Tudo isso toma tempo, trabalho e pode resultar, se não for bem administrado, em uma potencial confusão.

Não é coincidência que a Yamaha não se encontrou desde a implementação da eletrônica padronizada e a troca do fornecedor de pneus (Michelin) em 2016.

A YZR-M1 user-friendly (amigável) precisa de pneus mais macios para realizar curvas em traçados suaves e arqueados, mas no início de 2016 a Michelin introduziu um pneu traseiro com uma construção mais rígida como medida de segurança, depois que Scott Redding teve um componente desintegrado na Argentina, e um ano depois a empresa francesa introduziu um pneu dianteiro mais reforçado. Houve protestos de alguns pilotos, que preferiam pneus dianteiros mais amigáveis com uma carcaça mais macia.

Carcaça do pneu de Scott Redding em Rio Hondo

 

Desde então, até o início da temporada 2020, a M1 não consegue usar seus pontos fortes e tem sido prejudicada por seus pontos fracos. Entre 2016 e 2019 a Yamaha utilizou diversos chassis diferentes, sempre em busca de maior aderência. Rossi e Vinales não conseguiam encontrar um quadro adequado, em um ano terminaram a temporada mudando para o chassi do ano anterior na última corrida, mais perdidos que cachorro que caiu do caminhão de mudança”.

Enquanto isso, as equipes independentes, Tech3 e posteriormente a Petronas, ficaram alheias a esta confusão, continuaram correndo com o que tinham. Suas motos permaneceram praticamente inalteradas, pois a política de fábrica é desenvolver a moto para a equipe oficial e deixar para a independente um kit com a especificação mais antiga.  Melhor ainda, as motos de um ano dadas transferidas então para a Tech3, e atualmente a Petronas (com exceção de Quartararo este ano) foram sofrendo alterações com dados coletados durante uma temporada. Estão menos propensas a surpresas, enquanto isso os pilotos da fábrica começam do zero a cada temporada, amostrando e processando informações a cada corrida.

Ocasionalmente, os pilotos independentes reclamam que querem um kit mais atualizado, foi o caso de Quartararo na segunda metade da temporada passada, mas na maioria das vezes voltam para o seu original. É o segredo para o sucesso de equipes independentes.


Rossi e os pilotos da Petronas Quartararo e Morbidelli em Misano

 

Para os pilotos corridas as motos são 99% sobre sentimentos, quanto mais voltas sem mudar a configuração, maior é o aprendizado da moto e mais fácil é prever o seu comportamento. O condutor sabe o que fazer para não perder o controle quando, por exemplo, o pneu dianteiro desliza. Quando o chassi é novo ou as configurações significativamente diferentes não existe esta capacidade de prever o comportamento do protótipo, então qualquer reação da moto é uma surpresa para o condutor.

A vantagem de pilotar um equipamento já consolidado é comprovada pela história, os resultados obtidos por Quartararo, Morbidelli, Zarco, Crutchlow, Dovizioso e Bradley Smith em equipes independentes. Com certeza é mais fácil encontrar um centésimo na técnica de pilotar que em melhoria no hardware. É verdade que Rossi terá motos de 2021 no próximo ano, mas ele não terá engenheiros oferecendo novos recursos e peças o tempo todo, o que podem ou não funcionar.

Há outros pontos positivos na mudança de Rossi da equipe de fábrica para a equipe independente.

O comportamento d Rossi é de um hippie, como seu pai. Ele pode voar em jatos particulares velejar no Mediterrâneo em barcos chamativos, mas ele é apenas um hippie com algumas centenas de milhões de Euros no banco. Portanto, ele provavelmente se sentirá mais leve em uma equipe de menor, com menos camadas de gestão e menos deveres corporativos. Além disso, ele lembrou no fim de semana que conquistou seu primeiro título da classe principal, o campeonato mundial de 500cc com a Honda de uma equipe independente em 2001, trabalhando em paralelo,   não na estrutura corporativa da HRC.

Existe uma outra grande questão: A Petronas está pronta para Rossi? A equipe se saiu muito bem durante suas duas primeiras temporadas, em grande parte graças às habilidades de Quartararo, que a equipe aceitou contratar graças à enorme pressão do importador francês Yamaha, não por sua própria convicção.

O status de Rossi como o astro do paddock, adorado pelos fãs em todas as corridas, forçará Petronas a trabalhar de uma nova maneira, se a equipe não quiser ser sitiada por bem-intencionados admiradores durante todo o fim de semana, que podem ser uma distração para seus funcionários.

Uma curiosidade final é como Rossi se comportar sem sua tripulação técnica e a claque de seus assessores pessoais. A Yamaha não aceitou continuar pagando salario a seus amigos, que também foram rejeitados pela Petronas. Seu grupo de mecânicos também foi desfeito. Ao longo de sua carreira de primeira classe, o italiano manteve principalmente as mesmas pessoas ao seu redor porque é assim que ele gosta de trabalhar. Ele chama sua equipe de sua família, mas no final desta temporada ele vai dizer adeus a dois de seus membros mais fiéis, que estão com ele a décadas.


Alunos da Academia VR46

 

O australiano Alex Briggs trabalhou com Mick Doohan em seus cinco títulos de 500cc e faz parte da equipe de Rossi a partir do final de 1999, ao lado do companheiro australiano e chefe de equipe Jeremy Burgess.

O neozelandês Brent Stephens estava com a equipe Yamaha de fábrica quando Rossi mudou para a marca em 2004. “Lutei muito para toda a minha equipe mudar para a Petronas, mas às vezes é impossível”, disse Rossi no Barcelona. “Neste momento da minha carreira é normal e não tenho mais o poder de exigir tudo o que quero. Infelizmente não foi possível ter Alex e Brent. É triste, mas assim é a vida”.

Não está claro por que Petronas não quer Briggs e Stephens. Aparentemente, o problema não é financeiro, o que seria então? Talvez a administração da Petronas SRT queira afirmar a sua autoridade sobre a situação e garantir que Rossi saiba quem está no comando. Resta a questão se a equipe vai encontrar dois mecânicos que podem trabalhar muito bem com Rossi e lidar com a pressão em torno do maior nome que o este esporte já conheceu.

No próximo ano, Rossi também perderá seu outro mecânico de longa data, Bernard Ansiau, que ficará na equipe de fábrica. Ansiau tem um currículo de fazer inveja: três títulos mundiais de 500cc com Wayne Rainey, cinco com Mick Doohan e sete coroas de 500 e MotoGP com Rossi.

 

MotoGP - Falha de projeto?

Citicorp Center – Nova York

Um erro de projeto resultou em vulnerável a construção do Citicorp Center, uma edificação de 59 andares em Nova York. Um vento mais forte poderia ter derrubado o edifício. A falha não foi notada até que uma estudante da Universidade de Princeton levantou questões um ano após sua inauguração em 1977. Uma estudante de engenharia civil, Diane Hartley, consultou os engenheiros e arquitetos responsáveis pela obra para tentar encontrar um erro em seus cálculos em um trabalho acadêmico sobre a construção. A Srta. Hartley presumiu que seus resultados estavam errados, não estavam. A configuração única do edifício apoiado em quatro palafitas tornava seus cantos vulneráveis à carga do vento. Os reparos necessários foram realizados durante a noite para evitar o pânico, o segredo foi mantido por décadas.

 A mesma coisa pode ter acontecido com a Honda RC213V de 2020, um erro de projeto é possívelmente a razão dos maus resultados obtidos pelos protótipos nos GPs. Não há outra explicação plausível. Na primeira prova da temporada Marc Márquez, um dos pilotos mais talentosos em atividade, perdeu o controle da moto por duas vezes, algo improvável em alguém reconhecido por sua capacidade de adaptação ao equipamento e recuperação do controle em situações onde a queda é considerada inevitável. Como era a primeira prova da temporada, a pandemia havia prejudicado a preparação dos pilotos e a fornecedora Michelin trocou as características do pneu traseiro, as circunstâncias do acidente foram relevadas.

Algo estranho já havia acontecido nos testes que antecederam o primeiro GP em Jerez, Cal Crutchlow, um condutor experimentado que já venceu três provas (2016 & 2018) com protótipos da Honda, também perdeu o controle e fraturou a mão. Alegar que a equipe não tem pilotos adequados e que é a primeira temporada de Alex Márquez na classe principal é um contrassenso, Alex superou Brad Binder no mundial da Moto2 de 2019 e o sul-africano já venceu esta temporada. O irmão de Marc é um piloto de qualidade inquestionável, tem dois títulos mundiais (Moto3 em 2014 & Moto2 em 2019) e acumula 12 vitórias, 38 pódios e 15 poles em 143 participações em todas as classes da MotoGP. O piloto que assumiu a vaga de Marc Márquez enquanto o atual campeão se recupera da fratura do braço, Stefan Bradl, é o recurso de testes da equipe e provavelmente a pessoa que tenha mais familiaridade com equipamento. Bradl tem no histórico 1 mundial da Moto2, 7 vitórias, 19 pódios e 8 poles em 188 participações, contando todas as categorias.



Stefan Bradley na RC213V 2020

 

Outro indicativo que o modelo 2020 tem algum problema de origem é o fato de que o piloto da independente LCR, que disputa com um modelo RC231V antigo, o equipamento que Marc Márquez utilizou em 2019, obtém sistematicamente melhores resultados que os representantes da equipe oficial. Takaaki Nakagami tem um currículo muito inferior a Alex e Stefan, nunca venceu um mundial e tem 2 vitórias, 14 pódios e 5 poles, todos os resultados obtidos na Moto2. O japonês disputa o mundial desde 2007 (125cc) e foi promovido para a principal categoria em 2018, até os dias atuais a sua melhor colocação nos mundiais aconteceu em 2017, 7º classificado na Moto2.

A ausência de Marc tem sido a principal desculpa para mascarar o insucesso da Honda nesta temporada. Os registros de 7 etapas seguidas sem estar presente uma única vez no pódio e a ocorrência cada vez mais provável de um ano inteiro sem estar entre os três primeiros dos GPs não é consistente com a história da marca japonesa, agravado pelo desempenho recente da Yamaha e Suzuki, suas concorrentes diretas no mercado nipônico.

Barcelona 2020 - Primeiro pódio na temporada para Alex Rins

 

Condensar toda a temporada em poucos meses trouxe alguns problemas para a fornecedora de pneus. Com o GP da Catalunha agendado para uma época diferente do habitual (em junho) e programado para o final de setembro, a Michelin foi forçada a utilizar dados meteorológicos históricos para a área de Barcelona, para fazer a seleção adequada de compostos para os pneus. Dados anteriores sugeriam uma temperatura ambiente média de 27° C, semelhante ao esperado para junho, porém o fim de semana foi muito mais frio e com mais vento que o previsto, com uma temperatura ambiente de apenas 17° C e temperatura da pista de 20° C. Somente para efeitos de comparação, na corrida de Andaluzia em Jerez de julho a temperatura de pista foi de 59° C.

Como resultado prático, para correr na superfície fria e escorregadia da pista da Catalunha, todos os 22 pilotos selecionaram para a corrida o pneu traseiro macio. 17 pilotos também optaram pela frente macia, enquanto os outros cinco escolheram o médio. Ninguém optou pelo composto Hard.

Apesar do componente macio na frente, muitos pilotos tiveram problemas de aquecimento no lado esquerdo do composto, que é menos utilizado, não atingia a temperatura ideal. Quatro pilotos caíram após perderem a frente, a maioria, entretanto, conseguiu se adaptar e o tempo de vitória de Fabio Quartararo foi apenas dois segundos mais lento que Marc Márquez em 2019. A melhor volta do francês foi mais rápida que Márquez no ano passado.

A Michelin observou os dados históricos e escolheu uma gama de compostos adequada para um clima mais quente. Infelizmente as temperaturas foram muito menores que o esperado e dificultou aos pilotos obter o calor adequado para utilizar a maior aderência da pista.

O próximo Grande Prêmio da França, circuito de Le Mans, também está previsto para ser frio, a data tradicional do evento é maio, o que significa que a seleção de pneus da Michelin deve ser adequada a essas condições

 




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Johann Zarco tirou Dovizioso da prova na Catalunha

 

Com 8 etapas concluídas e faltando 6 provas, o campeonato começa a apresentar candidatos ao título. Até o meio da temporada, quatro pilotos estavam separados por apenas 4 pontos. Andrea Dovizioso que liderava a contagem antes de Barcelona foi atropelado por Johann Zarco e ficou estacionado, Fábio Quartararo obteve a sua 3ª vitória e retomou a liderança, Maverick Vinales viu sua pole na prova transformar-se em uma decepcionante 9ª colocação e Joan Mir com uma surpreendente Suzuki conquistou uma 2ª colocação que, apesar de não pontuar em duas provas (abertura em Jerez e na República Checa), em todas as outras conquistou pontos expressivos e apenas 8 o separam do líder.Fábio Quartararo conquistou a 3ª vitória na temporada

Terceira vitória de Fabio Quartararo em 2020


O GP da Catalunha apresentou um inédito duplo pódio da Suzuki (Mir e Rins) e comprovou as suspeitas que o novo componente traseiro da Michelin desequilibrou a disputa em favor dos motores com cilindros em linha (Yamaha e Suzuki). As motos V4 ainda não descobriram como obter mais rendimento com o maior grip do novo composto. A enorme reta do circuito de Barcelona não foi suficiente para a maior velocidade final dos V4 impor sua superioridade.

MotoGP – O mundial sem Marc Márquez

 

 

William Randolph Hearst foi um empresário norte-americano que criou uma enorme rede de jornais no início do século XX e acumulou uma fortuna estimada em 30,6 bilhões de dólares. Seus ensinamentos influenciaram toda a indústria da mídia impressa. São atribuídas a Hearst algumas premissas básicas para os jornalistas, por exemplo, “más notícias são as boas notícias, as que mais vendem jornais” e que “importante em uma boa matéria não é quem, o que ou quando, o real trabalho do jornalista é descobrir por que”.  

A temporada de 2020, com todos os percalços criados pela pandemia, está eletrizante. Depois de 7 etapas 4 pilotos estão separados por apenas 4 pontos na disputa do título, Dovizioso (Ducati) com 84, Quartararo e Vinales (Yamaha) com 83 e Joan Mir (Suzuki) com 80 pontos. Mir é o único que ainda não venceu. Em 7 etapas realizadas, 6 pilotos já ocuparam o lugar mais alto do pódio, 1 em sua primeira temporada na classe principal (Brad Binder). A Yamaha venceu 4 vezes, 3 com a equipe satélite (2 de Quartararo e 1 de Morbidelli) e uma única da equipe oficial (Vinales). A KTM registrou suas duas primeiras vitórias em mundiais da categoria, uma com o novato da equipe oficial (Binder) e outra da satélite TECH3 (Miguel Oliveira).

 

Miguel Oliveira – Vencedor do GP Styria


O mundial, disputado este ano exclusivamente na Europa por restrições políticas e sanitárias (fechamento de fronteiras), está sendo reconhecido como o mais disputado de todo o sempre. Os repórteres da mídia especializada na motovelocidade buscam uma justificativa para  o momento atual da temporada. Gil Grisson, personagem de uma série que fez sucesso na TV (Crime Scene Investigation - CSI), ensinava aos seus subordinados uma lição que é adequada para explicar a situação atual da MotoGP, “A ausência de indícios na cena do crime é, por si só, uma pista”. Se no atual grid não existem razões suficientes para explicar o que está acontecendo, o que está ausente pode ser uma justificativa plausível.

Em 2019 nas primeiras 7 etapas Marc Márquez contabilizou 140 pontos, incluindo a desistência no Circuito das Américas. O campeonato tinha vitórias de 4 pilotos (Márquez, Dovizioso, Rins e Petrucci) e 3 fabricantes diferentes (Honda, Ducati e Suzuki). Em 2019 só o GP da Catalunha não registrou 15 equipamentos na zona de pontuação, este ano já aconteceu em duas etapas, Andaluzia e Emilia Romagna. 


 

Representação Honda - Alex Márquez & Taka Nakagami

 

A Honda, pela primeira vez nos últimos anos não colocou pelo menos um piloto no pódio em sete provas consecutivas. Neste último GP participou com só duas motos, a oficial de Alex Márquez (7º) e a satélite de Takaaki Nakagami (6º), ficaram fora por motivos físicos os pilotos Marc Márquez que se recupera de uma fratura no úmero, Cal Crutchlow sofreu uma cirurgia no braço (arm pump) e Stefan Bradl se acidentou nos treinos e foi vetado pelos médicos. Se Márquez voltar na Catalunha, o que é muito improvável, vale lembrar que da 8ª até a 14ª etapas de 2019 ele acumulou 160 pontos, o suficiente para ser candidato ao título deste ano. Óbvio, é uma avaliação muito otimista para o desempenho do atual campeão, mas considerando a amostra que ele apresentou na primeira etapa de Jerez é uma hipótese que não pode ser descartada. A equipe nipônica está atravessando seu pior inferno astral nas 18 temporadas que se passaram desde 2002, o ano em que a MotoGP passou a usar motores quatro tempos. Neste período a Honda venceu um total de 10 Campeonatos Mundiais de Pilotos e 12 de Construtores. Nesta temporada a equipe ainda não colocou um só piloto no pódio e a melhor colocação de um de seus protótipos foi o 4º lugar de Takaaki Nakagami (satélite LCR) na prova da Andaluzia com a moto que Márquez utilizou em 2019. O último GP em Misano foi a primeira apresentação convincente do irmão de Marc Márquez, uma prova que talento não é um fator genético



KTM de Pol Espargaro



É extremamente injusto não considerar todo o esforço dos pilotos de testes e projetistas na pré-temporada, antes de surgir a pandemia. A KTM desenvolveu um novo quadro, a Michelin apresentou uma nova concepção de pneu traseiro, inovando na composição da borracha e na construção, que resultou em maior grip. Talvez as mudanças nos pneus expliquem porque os novatos estão obtendo resultados neste início de temporada, a experiência dos pilotos calejados desvaneceu-se com o comportamento diferente dos equipamentos, todos que compõem o grid partem de uma base comum, onde a cultura prévia dos veteranos não influencia muito. Os pilotos precisam aprender um modo diferente de conduzir as motos, o equilíbrio dos freios (dianteiro vs traseiro) foi alterado e o modo ideal de fazer o contorno das curvas mudou. Este fato pode ser comprovado na Yamaha onde o veterano Valentino Rossi, uma lenda do motociclismo esportivo, está atrás dos outros 3 pilotos que utilizam o mesmo equipamento (Quartararo, Morbidelli & Vinales). Aumentou consideravelmente a importância de gerenciar pneus e adequar os protótipos às condições de clima, asfalto e layout das pistas. Em Jerez as Yamaha, com seus motores de cilindros em linha e velocidade nas curvas, comandou as ações conseguindo inclusive um pódio triplo, que não é comum na atual MotoGP. Em Brno e no Red Bull Ring a potência dos V4 das Ducati e KTM foram importantes e em Misano as Yamaha voltaram a ser protagonistas. 

Yamaha de Franco Morbidelli 


A prova deste fim de semana, a segunda na rodada dupla de Misano, foi muito acidentada. Vitória da Yamaha de Maverick Vinales, que conseguiu manter um bom ritmo durante toda a prova e herdou a liderança a 6 voltas do final com a queda de Peco Bagnaia com uma Ducati da Pramac. O piloto italiano estava mantendo uma vantagem segura sobre Vinales quando perdeu a frente na Curva 6 e caiu. Não foi a primeira grande decepção que Bagnaia sofreu nesta temporada, perdeu um pódio em Jerez devido a problemas no motor, depois fraturou a perna nos treinos em Brno. Bagnaia concluiu apenas duas das sete provas realizadas, mas o seu desempenho nas pistas o credencia a ser o companheiro de Jack Miller na representação oficial da Ducati em 2021. No início deste ano, ao aceitar o contrato com a Avintia para pilotar uma Ducati GP19, o francês Johann Zarco obteve a promessa que, dependendo de seus resultados, poderia trocar pela GP20 de Bagnaia em 2021. Isto aconteceu antes de Dovizioso recusar a renovação de contrato e abrir uma vaga na equipe da fábrica. Zarco ocupa a 13ª colocação no mundial com 36 pontos acumulados, tendo abandonado uma só prova, Bagnaia está em 15º com 29 pontos conquistados em duas provas.

Autódromo de Barcelona - Catalunha


No próximo fim de semana o circo da MotoGP se apresenta na Catalunha, no circuito de Barcelona.
Nada indica que não vão haver surpresas nos resultados.

MotoGP – Mundial em tempos de Corona Vírus

 

   

Largada do GP de Misano 2020


Para caracterizar um campeonato como mundial a abrangência geográfica é tão fundamental quanto a diversidade dos concorrentes. Protagonista em 2020, o Corona Vírus criou um contexto totalmente diferente para a temporada, alterando as estruturas da MotoGP desde as limitações geográficas impostas por barreiras sanitárias até a restrição de espectadores nos circuitos. O circo itinerante, que leva o espetáculo aos quatro cantos do mundo, este ano está restrito às fronteiras da Europa. Os 16 países que hospedaram GPs em 2019 foram limitados a 6 este ano, metade (7) das provas na Espanha. GPs icônicos como TT Assen e Mugello não constam da programação. Um circuito que não recebia provas da MotoGP, o Autódromo Internacional do Algarve (Portimão) deve fechar a temporada. 

 O desafio enfrentado pelos promotores do mundial foi hercúleo. Praticamente toda a máquina montada para dar suporte ao mundial teve que ser refeita ou adaptada. A engenharia financeira foi profundamente alterada, as equipes sofrem com a crise econômica mundial e um corte no orçamento foi necessário. Para reduzir custos os motores atuais foram congelados para a temporada 2021. O financiamento dos circuitos, cujas fontes de receita são a bilheteria, cessão de espaços comerciais durante o evento e contribuição com a indústria do turismo, simplesmente desapareceu. Os organizadores perderam as taxas de hospedagem e tiveram que bancar parte das despesas, negociaram com administrações políticas e sanitárias locais, regionais e nacionais acordos para viabilizar a realização dos eventos. Um protocolo de contenção de propagação do vírus foi montado e está sendo rigidamente observado.

 Há pilotos de 8 nacionalidades diferentes, a maioria de espanhóis ou italianos. Antes da identificação da pandemia, a Dorna, a entidade que detém os direitos de comercialização dos GPs, intermediou negociações para manter o piloto gaulês Johann Zarco na disputa, endereçando o mercado francês. Fábio Quartararo também tem nacionalidade francesa, porém desenvolveu toda a sua carreira na Espanha e não é tão festejado em sua terra natal.

 Com todas estas limitações, o campeonato está andamento. Houve o acidente com Marc Márquez na primeira prova da temporada, que o excluiu da disputa pelo quinto campeonato consecutivo. Uma versão compacta com apenas 14 etapas e a adaptação dos protótipos e pilotos a uma nova concepção de pneu traseiro são as tônicas desta temporada.

 Estamos com 6 provas concluídas de uma temporada possível, de 14 GPs. Foram duas provas em Jerez, uma semana de folga seguida de três em fins de semana consecutivos (uma corrida em Brno e duas na Áustria), mais um intervalo de dois fins semana antes do primeiro GP em Misano.   Até agora foi um campeonato cuja característica principal foi desafiar qualquer tipo de prognóstico.

 Marc Márquez começou a temporada como o favorito para vencer mais um título, porém dois erros durante a primeira corrida, o primeiro saindo da pista e sendo ultrapassado por quase todo o grid enquanto excursionava pela brita, o segundo ao sair de frente em uma curva depois de uma recuperação excepcional, já na disputa pela segunda posição, resultou em um braço fraturado. Somando estes infortúnios a um erro de avaliação, estressar a placa que segurava o úmero quebrado, que exigiu um segundo procedimento cirúrgico para encaixar uma nova placa o excluíram completamente da disputa pelo campeonato. Márquez e a equipe esqueceram que a função da placa de titânio utilizada para consolidar fraturas é manter o osso alinhado, não suportar os esforços que o membro sinistrado está submetido durante uma prova. Este conjunto de adversidades sofridas pelo campeão prova que, ao contrário do que divulgavam as fake-news, Marc Márquez é humano.

 Diz o ditado que, na ausência do gato, os ratos fazem a festa. Com Márquez fora, a MotoGP contabilizou cinco vencedores nas seis primeiras corridas. Duas vitórias consecutivas de Fábio Quartararo na satélite Petronas Yamaha (com um equipamento igual aos da equipe oficial). Uma vitória do estreante para Brad Binder em sua primeira temporada na classe principal, a primeira para a KTM. Andrea Dovizioso estendendo a invencibilidade da Ducati no Red Bull Ring, antes de Miguel Oliveira quebrar essa sequência ao vencer com a KTM de uma equipe independente (a KTM RC16 da Tech3 KTM RC16 é idêntica às utilizadas pela equipe oficial). Por último a consagração de Franco Morbidelli da Petronas Yamaha. Quatro corridas vencidas por pilotos de equipes satélites em sua segunda temporada na classe principal. Uma vitória de um novato. Apenas uma vitória de um veterano, que tem no currículo 3 vice-campeonatos consecutivos nos últimos três anos.

 

Valentino Rossi em Misano 2020

 

O intervalo entre Jerez e a tripla jornada de Brno e Spielberg foi um ponto de inflexão para o desempenho das Yamaha, que marcaram o início da temporada como favoritas ao título. Duas provas com a vitória de Quartararo, 50 pontos conquistados em 50 disputados, o piloto de fábrica Maverick Vinales obteve dois segundos lugares e Valentino Rossi contribuiu para a primeiro pódio exclusivo da Yamaha desde 2014.

Entretanto bons resultados não implicam necessariamente em felicidade geral, a fábrica perdeu três motores no curto espaço de dois fins de semana, uma falha que pode indicar um problema de controle de qualidade e as válvulas foram eleitas como vilãs da história. Como os motores estão lacrados para a temporada, a Yamaha ensaiou um pedido para substituir as válvulas por motivos de segurança, porém recuou, como havia o risco de serem introduzidos melhoramentos durante o processo, outros fabricantes exigiram a fiscalização “in loco” por seus engenheiros. Para evitar expor soluções tecnológicas para a concorrência, a fábrica resolveu conviver com o problema minimizando os riscos reduzindo a rotação em, não é informação oficial, 500 RPM. Em outras palavras, reduzir a potência de propulsores que já não estão entre os melhores.

 Houve também os problemas com freios em Red Bull Ring. As Yamaha estavam superaquecendo seus freios, devido, em parte, as pinças Brembo. A fábrica disponibiliza quatro sistemas de pinças diferentes, nenhum foi adequado para o circuito de alta velocidade. Houve a necessidade de Vinales abandonar a moto ao se aproximar da Curva 3 totalmente sem freios. Valentino Rossi, o melhor dos pilotos da Yamaha nas duas corridas austríacas, terminou em quinto e nono respectivamente. Fabio Quartararo que marcou 50 pontos nas duas primeiras corridas, conseguiu somar apenas mais 20 pontos nos três que se seguiram e passou em branco na primeira prova de Misano.

 

Queda de Quartararo – Misano 2020

 

Abstraindo a dupla queda de Quartararo na última prova, a Yamaha ficou com a vitória (Morbidelli), 4º (Rossi) e 6º (Vinales). As Suzuki de Mir (3º) e Rins (5º) comprovam que Misano privilegia motores com cilindros em linha, a exceção que confirma a regra foi a Ducati V4 de Peco Bagnaia, 2º colocado. No mesmo circuito em 2019 Márquez venceu, quatro Yamaha ficaram com as colocações seguintes (na ordem, Quartararo, Vinales, Rossi & Morbidelli). Estes resultados podem servir de estímulo para a prova do próximo sinal de semana, embora na presente temporada todas as bolas de cristal estão apresentando defeitos

 

Ducati de Peco Bagnaia

 

Um dos competidores que pode ameaçar as Yamaha é a Ducati, o circuito de Misano é uma das suas pistas de teste oficiais. Duas Ducati estiveram no pódio (Petrucci & Dovizioso) em 2017, Dovizioso venceu em 2018 e no ano passado as Yamaha compartilharam o pódio com Márquez. O piloto italiano lidera o mundial e ainda não está confortável com a construção do pneu o pneu traseiro desde ano. Seu maior problema é a entrada de curvas, crucial em Misano, com uma série de pontos onde os pilotos acionam os freios com a moto inclinada. Dovizioso está seis pontos na frente de Quartararo, a corrida seguinte é em Barcelona, onde as Ducati podem usar sua maior potência, depois Le Mans, onde esteve no pódio em 2019. Ele pode encaminhar uma base sólida para o terço final do campeonato.

O benefício que a KTM tinha de haver realizado testes na pista antes da prova de domingo passado não foi representativo. As duas máquinas da equipe oficial (Pol Espargaro e Brad Binder) e as da independente Tech3 (Miguel Oliveira e Iker Lecuona) não conseguiram bons resultados. A qualificação que a mídia estava fazendo que a KRTM RC16 era a melhor moto do grid está em sob suspeita. Não há dúvidas que tanto Pol como Brad e Miguel ainda podem vencer nesta temporada, a questão é se tem folego para ameaçar os líderes atuais.

 


Suzuki de Joan Mir

 

Uma grata surpresa tem sido a Suzuki GSX-RR, parece ter alguns pontos fortes sérios sem nenhuma fraqueza óbvia: é ágil, veloz nas curvas como se espera de uma moto com cilindros em linha. Tem agilidade incomparável, uma capacidade surpreendente em curvas e ainda assim não perde muito em velocidade final comparada com as Ducati e Honda. Acelera, freia, gira e desenvolve bem em linha reta. Joan Mir e Alex Rins tem, ambos, 2 desistências em 6 provas, ambos com desempenho equivalente, embora Mir tenha 20 pontos a mais na contagem geral. Talvez a fábrica pudesse aparecer mais se tivesse uma equipe satélite e tem todos os motivos para esperar resultados fortes nas próximas corridas. Joan Mir esteve no pódio na última prova, o equipamento Suzuki evoluiu muito desde 2019. O bom desempenho em Misano pode se repetir em Barcelona, a moto responde com o equilíbrio nos itens de velocidade de curva e aceleração.

 

A equipe mais bem-sucedida de toda a MotoGP está atravessando um período difícil, pagando um preço alto por ser apostado suas fichas em um exército de um homem só. A RC213V é um equipamento excelente quando pilotado por Marc Márquez, forte nas mãos de Cal Crutchlow e complicado para qualquer outro piloto. Os resultados obtidos pela constituição atual da equipe oficial, Alex Márquez & Stefan Bradley são indignos de uma representação Honda. Marc e Cal afastados por problemas médicos deixaram toda a responsabilidade nas mãos de Takaaki Nakagami, que pilota um equipamento 2019, como resultado a Honda é a quinta colocada no campeonato de fabricantes, na frente apenas da Aprilia.

 


Aprilia de Aleix Espargaro

A RS-GP de 2020 é um equipamento melhor que a versão 2019, infelizmente para Aleix Espargaro, não é o suficiente para que ele seja verdadeiramente competitivo. A moto ainda não tem potência e precisa evoluir muito, como o motor deste ano não vai ser mudado para 2021, não tem como prever um futuro melhor para a equipe.

 

A evolução dos motores de 2 para 4 tempos foi caracterizada por mais que uma alteração técnica, houve uma mudança estrutural nas equipes. Seguindo o exemplo da Fórmula 1 onde a genialidade dos que o Comendador Ferrari chamava de garagistas, que desenvolviam o carro como um todo, a MotoGP substituiu o talento dos engenheiros-chefe por um conjunto de especialistas, cada qual responsável por sua área de excelência. O desempenho final do equipamento depende de decisões coletivas que envolvem o engenheiro de suspenção, administrador de telemetria, gestor do controle de software, especialista de motores e encarregado de estratégias, além dos técnicos dos fornecedores de freios e pneus, além obviamente do piloto. Não existe mais a figura do chefe de equipe plenipotenciário, a harmonia de esforços é que determina a competitividade do protótipo. O processo de um indivíduo cedendo lugar a um conjunto de especialistas foi necessário na medida que regulamentos e motos ficaram cada vez mais complexos. Infelizmente o grupo de pessoas imprescindíveis está sendo reduzido em um mundial onde relações públicas e promoção de marcas parecem mais importantes que pilotos e motocicletas.

 

 

Duas observações:

 

Stefan Bradl testou um capacete equipado com rádio em Misano. Esta inovação atenta contra um dos pilares da MotoGP, uma competição entre pilotos e equipamentos sem interferências externas. Todos lembram da pressão que a Ducati fez sobre Jorge Lorenzo na prova final de 2018 quando queriam que ele cedesse a posição para seu colega de equipe (Suggested Mapping: Mapping 8). A MotoGP corre o risco de que, como na Fórmula 1, vitórias sejam definidas por contratos entre executivos em escritórios. Hoje as comunicações e orientações entre pilotos e pessoal de retaguarda são unidirecionais, via painéis no muro do Pitlane ou curtas mensagens no dashboard. Com o equilíbrio sútil de uma moto em alta velocidade, qualquer desatenção do piloto pode causar acidentes.

 

 

O capacete de Franco Morbidelli era o mais próximo que o Brasil chegou da MotoGP desde que Alex Barros saiu da categoria. As cores da bandeira brasileira dividiam espaço com a bandeira italiana. Em sua primeira vitória na classe principal Morbidelli fez no capacete uma homenagem a seu mentor, Valentino Rossi. O Brasil, mesmo indiretamente, perdeu a oportunidade de estar no degrau mais alto do pódio.

 

MotoGP – Cinco primeiras etapas


A temporada 2020, em tempos de pandemia, tem apresentado um quadro que, embora não alinhado com a história, está próximo ao ideal proposto pelos administradores da MotoGP. A ideia dos gestores atuais é permitir, via regulamentos, a todos os participantes uma equidade de condições de disputa. Não é o que a história ensina, o Mundial de Motovelocidade contempla, desde a sua primeira edição em 1949, exclusivamente na classe principal (500cc & MotoGP) 902 provas, 60% vencidas por duas fábricas, 309 pela Honda e 231 pela Yamaha. Restringindo a vigência da MotoGP (motores de 4 tempos), de 2002 até os dias atuais, houve 319 GPs, 153 vitórias da Honda e 111 da Yamaha, totalizando 83% dos GPs disputados.

Em 2020 a diversidade de pilotos vencedores, quatro em cinco etapas, três fabricantes diferentes, expõem uma realidade de que a categoria está em um nível de competitividade inédito, existem disputas em todas as posições, não apenas pela vitória.

As duas grandes fábricas que dominaram a categoria estão enfrentando problemas, seus resultados estão aquém do esperado. Uma Yamaha pilotada por Fabio Quartararo, de uma equipe independente, venceu as duas etapas de Jerez. Valentino Rossi observou que este feito se deve mais a adequação do piloto às condições do clima e do circuito que às virtudes do equipamento. O fracasso da fabricante nas etapas de Brno e na Áustria comprovam esta afirmação.

A Yamaha tem dificuldades de adequação das válvulas, que os obrigou a reduzir o limite de rotação do motor, comprometendo a geração de potência. Todos os equipamentos da fábrica estão com problemas nos freios, que causaram o incidente em que Maverick Vinales saltou da moto em Red Bull Ring para evitar um mal maior.  Na primeira corrida da Áustria, Fábio Quartararo e Valentino Rossi também administraram falhas nos freios. Como todos os protótipos, não só as Yamaha, envolvidos nas disputas da MotoGP utilizam variantes (opção das equipes) de sistemas produzidas pela Brembo, restam duas hipóteses, ou os pilotos utilizam mal o componente ou a falha é resultado de uma inadequação do projeto da moto.

Esquadra da Yamaha em Jerez

Depois da exuberante exibição de Marc Márquez durante a corrida de recuperação antes do acidente em Jerez,  na abertura da temporada, a falta de resultados da Honda é difícil de ser explicada. A versão 2020 da RC213V foi desenvolvida para ser adequada para a técnica de condução do campeão, a moto tem a reputação de não ser amigável, portanto inadequada para um piloto egresso da Moto2 (Alex Márquez). O veterano Cal Crutchlow tem dificuldades com um pulso fraturado e ainda não descobriu a melhor maneira de andar com o novo pneu traseiro da Michelin. Apenas o protótipo de 2019, conduzido por Takaaki Nakagami está tendo desempenhos razoáveis, mas não o suficiente para alcançar um pódio. Por oportuno, a Honda nunca havia passado 5 provas seguidas sem estar no pódio nos últimos anos.

 

GP da Styria -2020

 

A hegemonia que Márquez tem mostrado nas últimas temporadas e sua habilidade de estar sempre na frente ofuscou o que está sendo explorado com mais insistência nas últimas provas: análise de detalhes como contatos, traços incorretos e comportamentos não confiáveis, entre outras coisas.

Este ano uma regra foi imposta para evitar os incidentes ocorridos nas temporadas passadas, e se aplica a todas as categorias: quem exceder os limites da pista, ato caracterizado com as duas rodas na área verde, deve perder a volta (se for na qualificação) ou uma posição. Com a aplicação da regra cresceu a importância do Painel de Comissários que decide se o piloto obteve vantagem ou não, ou seja, nem sempre a sansão é automática. Na última prova da Moto2 do GP de Styria em Red Bull Ring a penalidade foi aplicada para o líder, Jorge Martín, mas não ao vencedor Marco Bezzecchi, ambos saíram no mesmo ponto na última volta


Marco Bezzecchi & Jorge Martin

 

Na categoria principal, durante a prova houve um incidente com Joan Mir por exceder os limites da pista na Curva 1, o piloto teve que devolver uma posição, o mesmo não foi feito com Pol Espargaro na última curva em meio a uma disputa pela vitória. A explicação dos comissários foi que no caso a manobra foi necessária para evitar uma batida com Jack Miller e que Pol não obteve vantagem competitiva. A equipe de Mir alega que Pol deveria ter reduzido a velocidade e se mantido na pista, correndo o risco de perder o pódio para a Suzuki.

 

Última curva do GP da Styria 2020 (Oliveira, Miller & Espargaro)

 

Sempre que decisões são tomadas fora da pista, perde o espetáculo, não só pelo teor, mas por causa de seus prazos e discrepância nas suas avaliações. Pilotos e equipes reclamam que não sabem como devem se comportar porque não há uma definição clara.

No último grande prêmio, Styria, todas as equipes e pilotos das três categorias foram avisados que haveria maior rigor com padrões e comportamentos, para evitar incidentes como o que aconteceu entre Zarco e Morbidelli no fim de semana anterior.  A pilotagem irresponsável seria penalizada.

O que caracteriza pilotagem irresponsável. De acordo com o Regulamento Geral da Competição, versão 2020, “Os pilotos devem conduzir a moto de forma responsável, que não coloque em risco outros competidores e participantes, tanto na pista quanto no Pitlane. Qualquer violação desta regra pode ser punida pelos Comissários da FIM MotoGP”.

De acordo com esta regra, rodar da volta 4 até a volta 16 com problemas identificados nos freios pode ser considerado como colocar outros competidores em risco. Seria o caso de penalizar Maverick Vinales por sua conduta no último GP, que o obrigou a saltar da moto na aproximação da Curva 3 de Red Bull Ring.


Maverick Vinales brigando com os freios em Red Bull Ring

 

A competição exige um regulamento claro para sanções e sua aplicação, no mesmo nível de qualidade do regulamento técnico que resultou na maior igualdade mecânica da história, valorizando o talento dos pilotos, estratégias e técnicas de pilotagem.

Já há uma quase unanimidade de opiniões, inclusive entre os pilotos, que um campeonato sem Marc Márquez é mais interessante. Porém, mesmo com o retorno do campeão, a temporada de 2021 pode trazer surpresas. Devido a pandemia a associação de construtores (MSMA) decidiu, para contribuir para a redução de custos, manter os motores atuais congelados para a próxima temporada, com exceção da KTM. Com as vitórias de Brad Binder e Miguel Oliveira, a fábrica austríaca perdeu o regime de concessões, o número de motores para a próxima temporada será limitado a 7 por piloto (supondo que o calendario seja completo) e testes com os principais pilotos da equipe passam a ser proibidos.  Antes do GP da Áustria a MSMA concordou que a KTM pudesse alterar seus motores, porque há o risco que os atuais não suportem o aumento de quilometragem necessário por perderem o número de unidades de alocação (as equipes em regime de concessões podem usar até 9 unidades na temporada, para a KTM este número reduz para 7 em 2021). Esta exclusão da regra permite que a KTM possa, não só melhorar a especificação atual, como criar um motor totalmente novo, enquanto todos os outros estão congelados. Pode ser um fator a mais para complicar os prognósticos da próxima temporada.

As regras publicadas no fim de agosto especificam:

O fabricante que está abrigado no regime de concessões em 2020 e perder esta característica em 2021 estará sujeito ao regulamento de homologação do motor desde a primeira prova da temporada. A especificação deve ser apresentada ao diretor técnico da MotoGP e os motores lacrados antes da primeira prova.

 

Equipes que utilizam equipamentos KTM – A oficial de fábrica e a independente Tech3

 O sul-africano Brad Binder, vencedor da etapa de Brno, um novato que venceu a sua terceira prova na classe principal, agradece o caráter imprevisível que a ausência de Marc Márquez trouxe para o campeonato. “É uma coisa de loucos. O pódio é diferente todas as semanas e há sempre uns em melhor forma. Há quem tenha problemas na moto, outros simplesmente tem um fim de semana maravilhoso. Este campeonato tem sido um verdadeiro caos. Ao contrário dos anos recentes, a luta pela liderança é imprevisível, Fabio Quartararo tem apenas 3 pontos de vantagem sobre o segundo, Andrea Dovizioso”.