terça-feira, 10 de março de 2020

MotoGP – Todas as coisas boas um dia acabam

Valentino Rossi



Nelly furtado é uma compositora e cantora luso-canadense que em 2006 emplacou um sucesso que pode ser portado na íntegra para o estágio atual da MotoGP. Embora em um contexto diferente, o ensinamento da letra da música é didático: Todas as coisas boas um dia acabam (All good things come to the end).

Em uma época do ano em que as notícias da MotoGP costumavam ser apenas em torno da apresentação dos novos modelos dos protótipos que participarão da próxima temporada, os aficionados da categoria tiveram diversas novidades. Uma notícia importante para os tupiniquins foi que a emissora do Jardim Botânico cancelou as transmissões ao vivo das provas pela TV, inclusive demitindo seus profissionais que eram uma referência na cobertura do esporte. 

A equipe oficial da Yamaha radicalizou, em um intervalo de poucos dias noticiou a permanência de Maverick Vinalles para o biênio 2021/2022, a contratação de Fabio Quartararo para ser seu companheiro e emitiu uma declaração de amor indicando que, se o decano das pistas Valentino Rossi optar por continuar competindo, disponibilizaria para ele um equipamento no estado da arte, com todas as atualizações disponíveis. Em outras palavras, a Yamaha admira e respeita o velho campeão, porém quer atrelar seu futuro em talentos mais jovens. Há inúmeros indícios que esta solução tenha sido negociada com Rossi, poucas semanas atrás ele fez diversos elogios à satélite SIC Petronas e não descartou a hipótese de pilotar para a equipe. Uma outra opção, a inclusão da Sky VR46 no grid da MotoGP está, por hora, descartada.

Valentino Rossi venceu o último mundial de 500cc (motores 2 tempos) em 2001 e os dois primeiros da era 4 tempos com equipamentos Honda em 2002 e 2003. Migrou para a Yamaha conquistando na sequência os títulos de 2004 e 2005. Em 2006 perdeu a temporada para Nicky Hayden (Honda) por uma queda na última prova em Valência. Em 2007 foi atropelado pela estrela ascendente de Casey Stoner (Ducati) e conquistou seus dois últimos títulos em 2008 e 2009.    

O ponto de inflexão na carreira vitoriosa de Valentino Rossi aconteceu em julho de 2010 na pista de Mugello, no 3º treino livre antes do GP da Itália. O piloto sofreu um acidente grave que resultou em uma fratura exposta na perna direita. A infelicidade de Rossi coincidiu com a melhor fase de seu companheiro de equipe, Jorge Lorenzo, que fora contratado em 2008 como segundo piloto. Em 2010, o espanhol de 23 anos fez uma temporada perfeita. Terminou todas as corridas, conquistou 9 vitórias, 7 pódios e marcou um recorde de pontos (383) que só foi batido por Marc Márquez em 2019. 

Quando Lorenzo conquistou o título mundial em 2010, a Yamaha condicionou a permanência de Rossi na equipe se aceitasse um corte no salário e o status de número dois.  Depois de uma década como um dos desportistas mais bem pagos do mundo, uma renumeração menor não era problema, mas Rossi sempre fora o número um. Casey Stoner ficou com a melhor moto disponível em 2011, deixou a Ducati pela Repsol Honda, a equipe do seu herói de infância, Mick Doohan. Rossi tomou a atitude que todos esperavam, despediu-se da sua amada Yamaha e foi para a Ducati compondo a equipe dos sonhos dos italianos. Na época alguém escreveu que uma vitória de Rossi com uma Ducati seria equivalente ao Papa vencer o GP de Monza pilotando uma Ferrari. Tinha tudo para ser uma história fantástica, foi um desastre completo.

Depois de dois anos horrorosos para um piloto vencedor, o ídolo italiano voltou para a Yamaha em 2013, porém o contexto havia mudado. Lorenzo conquistou o título de 2012 e Casey Stoner anunciou a sua aposentadoria, abrindo espaço para o talento de Marc Márquez. A carreira de Valentino ainda apresentou algum brilho em 2015, com 4 vitórias em 18 provas, desde então subiu no degrau mais alto do pódio apenas 3 vezes, 2 em 2016 e uma em 2017.

Em seus 24 anos competindo nas diversas categorias do mundial de motociclismo até o acidente em 2010 Rossi nunca passou uma temporada inteira sem vitórias, que aconteceu em seus anos de Ducati (2011/2012) e repetiu agora nos dois últimos anos. Os resultados de Marc Márquez estão mudando os padrões de referência para o esporte das duas rodas. Desde 2013 o espanhol conquistou 56 vitórias contra apenas 10 de Rossi. O recorde de vitórias por temporada, que desde a introdução do regulamento da MotoGP em 2002 foi estabelecido por Rossi em 2005 (11 vitórias em 17 etapas), foi batido por Márquez em 2014 (13 em 18) e 2019 (12 em 19).

A importância de Valentino Rossi para a MotoGP excede aos resultados nas pistas. Seu carisma, paixão pelo motociclismo e tino comercial fizeram dele mais que um simples líder, sua participação em qualquer evento arrecada uma multidão de torcedores com bandeiras amarelas e o número 46. Rossi administra o complexo comercial VR46, que inclui uma divisão de marketing com um faturamento que excedeu a 20 milhões de Euros no último ano, além de controlar a VR46 Riders Academy para formação de pilotos e as equipes Sky VR46 que disputam Moto2 & Moto3. Quase com certeza o piloto, depois que se aposentar das pistas, deve assumir a função de Embaixador da Yamaha no esporte.

Não existe na MotoGP um protótipo que seja nitidamente superior aos demais em todos os circuitos. A linha de desenvolvimento de um equipamento impõe alguns compromissos, veículo com excelente poder de aceleração tem dificuldades no contorno de curvas, motores V4 desenvolvem maior potência, com cilindros em linha são mais equilibrados. Franco Morbidelli, que chegou na MotoGP com uma Honda da Marc VDS e migrou para uma Yamaha da SIG Petronas, declarou que são duas motos completamente diferentes, a RC213V exige ser dominada pelo piloto, a YRZ M1 é mais amigável, requer carinho. Neste contexto fica estranho as constantes reclamações dos pilotos Yamaha por maior velocidade final em retas, assim como as exigências dos pilotos Ducati por maior desempenho em curvas. O conceito que orientou o desenvolvimento dos equipamentos endereçava estas restrições.

A carreira de Valentino Rossi só não foi perfeita por ele não ter conseguido bater os recordes de Giacomo Agostini de número de mundiais e de vitórias em GPs, mesmo considerando que esses números foram obtidos em outras circunstâncias. Muitos nunca entenderam a razão pela qual em 2015, depois de uma corrida onde Marc Márquez ultrapassou Jorge Lorenzo na disputa pela liderança na última volta e onde ele perdeu a 3ª colocação para Andrea Iannone a poucos metros da bandeira quadriculada (Phillip Island), Rossi denunciou uma conspiração espanhola para evitar seu nono título mundial. Esta acusação elevou as tensões entre os pilotos e resultou no chamado Incidente em Sepang, que causou a sua punição para largar na última posição do grid na prova de Valência, que decidiu o campeonato em favor de Jorge Lorenzo.

Conta a lenda que a picada da mosca azul inocula nas pessoas doses concentradas de ambição e poder. De certa forma todos os pilotos que experimentaram algum sucesso na MotoGP foram picados e procuram de alguma forma manter a proximidade com o esporte. Giacomo Agostini e Mick Doohan, que brilharam em suas respectivas épocas, até hoje são presenças frequentes em todos os GPs. Aqui em Pindorama existe o exemplo de Alex Barros que depois de uma carreira brilhante abandonou a MotoGP em 2006. Próximo aos 50 anos de idade (tem 49) ainda brilha nas pistas. Seja qual for o futuro de Valentino Rossi, até um retorno à Aprilia onde conquistou seus primeiros títulos mundiais já foi especulado, vai manter “The Doctor” próximo das pistas. O seu nome é, e vai ser durante muito tempo, sinônimo de motovelocidade.

Assim como ensina o sucesso de Nelly Furtado, todas as coisas boas um dia acabam. A equipe oficial da Yamaha decidiu que a partir de 2021 vai centrar seus esforços em Maverick Vinales (25 anos) e Fábio Quartararo (20). Valentino (41) terá, se quiser, o total apoio da fábrica em qualquer equipe que queira competir.

MotoGP – Disputa de gerações




Quino, um cartunista argentino criou a Mafalda, principal personagem de uma série de tiras publicadas em jornais entre 1964 e 1973. Mafalda era uma menina de seis anos que odiava sopa, adorava os Beatles e os desenhos do Pica-Pau. Tinha o comportamento típico de uma menina da sua idade, através da qual o cartunista realizava uma análise crítica dos costumes da década de 60. Uma tira antológica da Mafalda define o que se convencionou chamar de conflito de gerações, nos quadrinhos ela e um amigo acompanhavam com o olhar um rapaz andando aflito na rua e ela faz o seguinte comentário: “Você já percebeu esta geração que hoje reclama que os mais velhos não dão oportunidades aos jovens é a mesma que não vai abrir espaço para nós no futuro”?



A MotoGP está invertendo esta tendência. Cada vez mais talentos imberbes estão tomando o lugar de pilotos competentes e experientes. O exemplo de maior sucesso aconteceu em 2013, Marc Márquez acumulava uma carreira de vitórias nas categorias de acesso e foi promovido à equipe oficial da Honda para uma vaga aberta com a aposentadoria precoce de Casey Stoner. Márquez foi campeão em sua temporada de estreia com apenas 20 anos. Em 2019 Fábio Quartararo chegou na MotoGP através da equipe estreante Petronas, uma satélite da Yamaha. Com apenas uma vitória (Moto2) no currículo, foi a grande sensação da temporada conquistando 6 poles, 7 pódios e a 5ª colocação no mundial, à frente da Yamaha de Valentino Rossi da equipe oficial. Para a temporada de 2020 a KTM Tech3 buscou Iker Lecuona (20 anos), que vai assumir uma vaga na categoria principal após disputar pouco mais de três anos nas classes menores, sem nunca ter vencido. A única proeza conhecida de Lecuona foi ter viralizado na Internet com a montagem de um vídeo onde era derrubado por um gato telespectador. No final de 2018 a Suzuki anunciou a troca do veterano Andrea Iannone (30) por Joan Mir entregando o desenvolvimento da nova GSX-RR a praticamente dois novatos, Alex Rins (24) & Joan Mir (22).



Enquanto o mundo da MotoGP espera, alguns com certa ansiedade, o anúncio da aposentadoria de Valentino Rossi, 2020 promete ser uma temporada excitante dentro e fora das pistas. Tito Rabat (Avintia Ducati) é o único piloto que alinha no do grid com presença garantida em 2021, os contratos de todos os outros pilotos se encerram no final desta temporada. A dança das cadeiras em parte é um jogo de cartas marcadas, ninguém acredita que a Honda não vai mover mundos e fundos para manter Marc Márquez na equipe. Muitos dizem que a contratação do Alex Márquez foi mais para facilitar a renovação do contrato do campeão que uma opção essencialmente técnica. É quase certo que Cal Crutchlow deve abandonar ao motovelocidade e deixar os britânicos dependentes de Bradley Smith na Aprilia, que nem de longe é uma esperança de pódios.



Valentino Rossi é um capítulo à parte. O decano dos pilotos já declarou que só deve permanecer na Yamaha se a equipe desenvolver um protótipo que lhe permita uma real chance de ser campeão, o que parece cada vez mais improvável. Existe uma regra não escrita que propulsores com cilindros montados em “V” (Ducati, Honda, KTM & Aprilia) entregam maior potência em retas e os com cilindros em linha (Yamaha & Suzuki) são mais eficientes em curvas. Depois dos primeiros ensaios com a M1 que deve estar nas pistas em 2020, Rossi e Vinales identificaram alguns aspectos positivos, mas reclamaram muito da velocidade final do equipamento. Johann Zarco tem um ano para provar que a Avintia não é o que ele próprio rotulou no fim de 2019, uma equipe medíocre.



O destino do piloto mais badalado de 2019, Fábio Quartararo, é um ponto de interrogação. Seu empresário optou por uma estratégia de risco, imagina que quanto mais retardar a assinatura de um contrato, mais valorizados ficarão os serviços do francês. Há indícios nas publicações especializadas que o gestor da carreira do piloto e a direção da equipe oficial da Yamaha já não falam o mesmo idioma. O empresário teria julgado uma oferta da equipe oficial, um salário superior ao atualmente pago a Maverick Vinales, como insuficiente. Em 2016 quando JL99, já com um histórico de piloto multicampeão e com excelentes resultados na Yamaha, foi seduzido por um caminhão de Euros pela Ducati, o seu período de adaptação até apresentar resultados durou mais de uma temporada. As pessoas que acompanham a MotoGP sabem que o desempenho de um piloto depende muito do equipamento, o sucesso de Quartararo com outra máquina que não seja Yamaha é imprevisível.



Onze dos 22 pilotos inscritos no mundial de 2020 tem 25 anos ou menos. O mais jovem, Lecuona, tem apenas 53 largadas e menos que a metade da idade de Valentino Rossi. Existe uma lógica neste processo, pilotos muito jovens com currículo enxuto ou inexistente, que ainda não apresentaram bons resultados, custam relativamente pouco.



Alguns veteranos como Andrea Dovizioso (33, Ducati) e Aleix Espargaro (35, Aprilia) tem suas aposentadorias anunciadas, o piloto da Ducati cansou de ser vice e o da Aprilia de ser figurante. Cal Crutchlow (34) destruiu seu tornozelo direito em um acidente no TL2 de Philip Island em 2018, desde então não recuperou sua total funcionalidade. Em repetidas oportunidades declarou que sua intenção é ter uma vida mais voltada para a família a partir de 2021. 



A temporada de contratações normalmente era centrada depois do recesso de verão (no segundo semestre), o “timming” foi alterado quando, no início de 2016, Valentino Rossi renovou com a Yamaha para o biênio de 2017/2018, a antecipação do contrato foi considerada uma manobra estratégica para inviabilizar a permanência do desafeto Jorge Lorenzo na equipe. Antes deste evento as contratações aconteciam depois das férias de verão (na Europa) e os resultados obtidos durante a temporada, incluindo as classes de acesso (Moto2 e Moto3), eram itens importantes e considerados na avaliação e um piloto. Desde o início dos bons resultados de Fábio Quartararo, na Catalunha em 2019, menos da metade de seu primeiro ano de contrato, existem especulações sobre qual equipamento que o francês vai utilizar em 2021/2022.



Em tempo, na MotoGP não são incomuns as situações onde contratos não são respeitados. Em meio a 2019 Johann Zarco pediu o desligamento da KTM, Jorge Lorenzo cancelou a temporada de 2020 com a Repsol-Honda, Alex Márquez ignorou o contrato que havia renovado com a Marc VDS na Moto2 para compor a dupla de pilotos da equipe oficial da HRC na MotoGP. Jonas Folger perdeu a vaga já confirmada de piloto de testes da Yamaha quando a equipe decidiu centrar o desenvolvimento da M1 junto à fábrica no Japão e Karel Abraham foi defenestrado da equipe Avintia para abrir uma vaga para Zarco.   


MotoGP – Pneus, desempenho e durabilidade



Circuito de Le Mans Bugatti



A pior curva para os pilotos da MotoGP em 2019 foi a Curva Três do circuito Le Mans Bugatti na França, um contorno à esquerda realizado em 80 km/m depois de um longo trecho em alta velocidade. Houve neste e em outros trechos do circuito um considerável número de situações onde a destreza dos pilotos foi insuficiente para manter as motos na pista durante no fim de semana. O GP começou estranho com as quedas de Joan Mir e Karel Abraham, ambos perderam a frente em incidentes separados durante a volta de apresentação. Uma explicação possível é que o lado esquerdo do pneu dianteiro muitas vezes chega neste trecho da pista sem a temperatura ideal.

 Os pneus são a única parte do protótipo em contato com a pista, responsáveis pela adesão (grip) necessária para frear e acelerar e contornar curvas. A escolha do composto adequado é um fator importante para o resultado dos GPs, a Michelin tem consultores trabalhando no aconselhamento aos pilotos nos boxes de todas as equipes.

 A Michelin, uma das principais fabricantes de pneus do mundo com sede em Clermont-Ferrand, França, desde 2016 é a fornecedora exclusiva de pneus da MotoGP e recentemente prorrogou seu contrato até 2023. A indústria francesa oferece uma gama de compostos selecionados de acordo com as condições previstas pela meteorologia, desenho (layout), topologia da pista e características do piso.

 É um trabalho hercúleo, em cada fim de semana com clima seco a empresa fornece um conjunto de 22 pneus (10 dianteiros e 12 traseiros) para cada piloto, distribuídos por característica de aderência e durabilidade em macios (soft), médios (medium) ou resistentes (hard), cada equipe seleciona a quantidade da opção mais adequada. Para o piloto que participar de todas as seções de classificação (ou seja, praticamente todos) é concedido como bônus, um par adicional. Em condições adversas de clima, os pilotos terão disponíveis 13 pneus específicos para a pista molhada (6 dianteiros e 7 traseiros). Se por caprichos do tempo durante pelo menos quatro das sessões realizadas entre sexta-feira e sábado a pista estiver molhada, todos os pilotos recebem mais um conjunto de pneus.

 A engenharia da Michelin especifica para cada pista uma composição diferente para pneus macios, médios ou resistentes, o que implica que existem múltiplos processos de produção, de acordo com as condições do piso um pneu considerado médio em um circuito pode receber a classificação de macio ou resistente em outro.

 Os circuitos da MotoGP podem ter orientação horária (mesmo sentido dos ponteiros de um relógio) ou anti-horária, o desenho da pista define se existem mais curvas à direita ou à esquerda. Marc Márquez, formado pistas de saibro (dirty tracks) anti-horário, já declarou diversas vezes ter predileção por curvas para a esquerda. Buscando o melhor aproveitamento das características dos pneus em relação ao lay-out das pistas, a Michelin pode fornecer compostos assimétricos, com composição da borracha diferente em cada lado do pneu, permitindo maior resistência ao desgaste ou facilidade de aquecer e manter a temperatura nas bordas mais solicitadas, de acordo com o número de curvas para um lado ou outro.

 Um item importante para o correto funcionamento dos pneus é a pressão interna, conhecida como calibragem. A MotoGP implementa sensores de temperatura e pressão para que todas as especificações do fabricante sejam seguidas e resultem em condições de segurança de operações para todos os pilotos. Em 2016 Loris Baz pilotando uma Ducati sofreu um acidente na reta de Sepang a 290 km/h por causa da falha estrutural do pneu traseiro. Na época uma das razões indicadas para o colapso do componente foi que o pneu rodava com pressão menor que a indicada, manobra tentada para produzir maior grip. Desde então as equipes são obrigadas a utilizar as pressões recomendadas pela Michelin, amostradas por sensores dedicados que, dependendo das condições (clima, aderência do piso), ficam por volta de 29 psi (libras por polegada quadrada - pound per square inch) nas rodas dianteiras e 26,1 psi nas rodas traseiras, respectivamente 2 e 1,8 bares. A calibragem deve ser realizada na temperatura ambiente e com ar seco. Pneus com pressão inadequada deformam em condições de uso e dificultam conseguir e manter a temperatura ideal de funcionamento. Durante uma prova a temperatura de um pneu alcança mais de 100°C na roda dianteira e 120°C na traseira (60°C e 80°C na chuva). Os pneus Michelin oferecem o melhor desempenho (grip) em uma janela pequena de temperatura.

 A pressão inadequada pode deformar o pneu durante o uso, resultando em maior dificuldade para obter a temperatura de trabalho correta, tornando a dirigibilidade mais perigosa.

 Os pneus, como mencionamos no início, são os únicos pontos da moto em contato com o solo, o que faz com que todas as forças geradas pelo motor, aceleração, frenagem e movimento do piloto no assento passem para o asfalto através da sua superfície de contato mínima.

O ponto de contato tem uma área equivalente a um cartão de crédito. Através desta pequena área, o piloto transfere toda a energia gerada pelo motor e freios das motos mais avançadas do planeta. Ao suportar estas forças, o pneu deve manter sua forma não apresentar deformações.

 Os esforços que são solicitados dos pneus durante uma aceleração em uma reta na roda traseira são da ordem de 2.200 Newtons (224 kg) e durante uma forte frenagem o pneu dianteiro excede 2.500 Newtons (254 kg). Durante as curvas as forças laterais excedem 2.000 Newtons (203 kg). A principal atividade dos pilotos nos testes que antecedem aos GPs é escolher o tipo de pneu mais adequado, o que apresenta o melhor compromisso entre desempenho e durabilidade.

 Imagine todos estes esforços nos pneus em uma prova de 45 minutos, curva após curva, frenagem após frenagem, rodando em um piso em que a temperatura pode chegar a 60 como já aconteceu em Sepang. Não é fácil gerenciar a durabilidade dos pneus em situações tão críticas, porém é exatamente isso que separa bons pilotos de campeões.






O guerreiro no fim da batalha



Carlos Alberto


MotoGP – O sonho (pesadelo) da Aprilia



RS-GP de Espargaro, Sepang, fevereiro 2019


O Grupo Piaggio com sede corporativa localizada em Pontedera, uma comuna italiana da região da Toscana, província de Pisa, administra um complexo industrial que atua na produção de veículos automotores de duas rodas e equipamentos comerciais compactos. As industrias controladas pelo grupo produzem viaturas comercializadas por sete marcas, Piaggio, Vespa, Gilera, Moto Guzzzi, Scarabeo, Derbi e Aprilia.


Na MotoGP a Aprilia sempre foi considerada o “primo pobre”, a menor fábrica a participar da competição e com o menor contingente de técnicos e engenheiros nos boxes durante os GPs. Na temporada de 2019 a equipe foi a 6ª e última colocada no campeonato dos construtores marcando apenas 88 pontos (59 de Aleix Espargaro e 29 de Andrea Iannone). A Aprilia, assim como a Suzuki, não tem equipe satélite, que implica em menor número de pilotos coletando dados para alimentar a retaguarda técnica.


A fábrica anuncia o único equipamento original na temporada de 2020, com motor e chassi radicalmente novos, resultantes de aumento expressivo de investimento financeiro do Grupo Piaggio. A Aprilia ainda não anunciou a especificação do novo equipamento, é provável que ele seja impulsionado por um motor V4 90°, substituindo os V4 75° que aparentemente atingiram seu limite na geração de potência. Em 2012 a Honda substituiu o RC212V de 75° de 800cc pelo seu RC213V 90° 1000cc, inspirada no sucesso do lay-out utilizado pela Ducati, a Aprilia pode seguir este mesmo caminho. Um V4 90° não é tão esguio quanto um V4 75°, porém os engenheiros da Honda encontraram maneiras de produzir um protótipo compacto, a fábrica italiana tem este mesmo objetivo. O V4 90° entrega melhores resultados na aceleração, freio motor (torque negativo) e habilita configurações mais efetivas na temporização de disparos (big bang). Diferentes ordens de disparos permitem maior eficiência na gestão da travagem do motor. Estima-se que o novo motor da Aprilia entregue 280 cavalos de potência, um acréscimo de 10% sobre o atual, o que sugere que o novo equipamento Aprilia deve ter um desempenho competitivo em linha reta.


Na MotoGP o torque negativo é quase tão importante como a retomada de velocidade nas curvas porque o comportamento dos pneus dianteiros da Michelin não é tão eficiente como eram os Bridgestone, que obriga os pilotos a usar o pneu traseiro para parar a moto. Em seu primeiro ano na Ducati Jorge Lorenzo disse que as GP17 o obrigaram a reaprender a pilotar, preocupar-se em utilizar mais a traseira, “como num barco” em suas próprias palavras. Em 2019 Aleix Espargaro e Andrea Iannone tiveram sérios problemas para frear a RS-GP porque o freio motor era ineficaz, a esperança é que um novo propulsor corrija este problema.  


Coincidindo com o início das novas regras que elevaram a capacidade cúbica do motor para 1000cc (2012) a FIM permitiu, para aumentar o número de participantes no grid, as motos classe CRT (Claiming Rules Team) que utilizavam motores comerciais e tinham uma série de concessões para obter um desempenho semelhante aos dos protótipos, além da classe Open, sem apoio da eletrônica.

A construtora italiana obteve um expressivo ganho de qualidade com a contratação de Andrea Iannone. Até então, por ter desenvolvido sua carreira em equipes CRT o piloto Aleix Espargaro começou na MotoGP competindo com motores comerciais sem grandes recursos, com a experiência de Iannone houve expressivo avanço na eletrônica e consequente melhor desempenho. A Aprilia, com o apoio incondicional do Grupo Piaggio, está investindo muitos recursos (pessoas, tempo e $) para superar o gap que a separa das outras equipes, recontratou um eng. eletrônico da equipe Ferrari de Fórmula 1 que já havia trabalhado para fábrica e resgatou outro eng. eletrônico que a Suzuki roubou há alguns anos. Também buscaram um especialista em aerodinâmica da Ferrari, reforçando todos os departamentos.


Todos esperam muito de 2020. A reorganização comandada pelo CEO da Aprilia Racing, Massimo Rivola, ajudou a libertar o engenheiro-chefe Romano Albesiano para projetar uma nova RS-GP a partir do zero. A esperança é que a moto seja muito mais competitiva do que a V4 75° atual. Com a notícia do doping de Andrea Iannone agora a equipe fica sem um recurso importante do programa de MotoGP, um piloto experiente e comprovadamente veloz. O advogado de Iannone declarou que a amostra B do teste de drogas confirmou a anterior (nem poderia ser diferente, o material foi colhido na mesma ocasião). De acordo com os regulamentos da FIM o italiano está automaticamente banido por quatro anos por uso do esteroide anabolizante Drostanolona.


As quantidades encontradas na amostra foram mínimas, o advogado de Iannone informa que a contraprova indicou mostrou a presença de metabólitos igual a 1,15 nanogramas por mililitro. Considerando que a amostra estava extremamente concentrada por ter sido colhida com o piloto desidratado logo após a corrida quente e húmida na Malásia, indicaria uma presença ainda menor em condições normais, apoiando a teoria da contaminação acidental através de alimentos. Em favor de Iannone, foi a primeira vez que foi testado em 2019, no ano passado foi um dos cinco pilotos escolhidos para seguir o programa ADAM (Arrestee Drug Abuse Monitoring), sistema onde os atletas têm de informar continuamente onde estão e o que estão fazendo para habilitar a colheita de amostras a qualquer tempo. Suas opções de defesa agora são limitadas, a FIM, como a maioria das federações esportivas internacionais, adotou o código WADA (Agência Mundial Antidopagem), que afirma explicitamente que os atletas são responsáveis por todas as substâncias encontradas em seus corpos. Pode haver circunstâncias atenuantes, mas a Drostanolona, um esteroide androgênico anabolizante, conhecido no jargão da medicina esportiva como "substância não especificada", é visto como extremamente improvável de ser encontrado como resultado de processos naturais ou contaminação acidental.


As chances de evitar ou reduzir uma condenação são escassas. Se a defesa é contaminação acidental, Iannone tem o ônus da prova. O vetor comum para a contaminação com esteroides anabolizantes é o consumo de carne. Clenbuterol é amplamente utilizado no México, América do Sul e partes da Ásia para o gado ganhar peso, então a contaminação por este esteroide é comprovadamente uma possibilidade real, assim como a contaminação com uma série de outros produtos semelhantes. No entanto, a Drostanolona, por reduzir a gordura corporal, expelir a água e ser um produto cuja produção demanda um custo bem maior que a maioria dos esteroides comuns, não é atraente para os produtores de proteína animal, assim a chance de ser ingerido através de carne contaminada é extremamente improvável. Normalmente esta substância é encontrada em fisiculturistas, pugilistas e lutadores MMA que buscam o enquadramento em determinadas categorias do esporte. Pode ser usado em ciclos relativamente curtos - duas a quatro semanas – e seus componentes são expelidos normalmente do corpo de forma relativamente rápida, desaparecendo totalmente após cerca de três semanas. Para um piloto da MotoGP o resultado da ingestão do produto seria perder peso e obter mais massa muscular. A quantidade encontrada é consistente com o fim de um ciclo anabolizante, ou seja, pouco mais de duas semanas depois do esteroide ser ingerido.


Iannone admite que estava seguindo um programa de perda de peso até 2019, mas disse o foco era alimentação controlada e exercícios aeróbicos. A Aprilia estava ciente e o objetivo era reduzir a diferença corporal entre ele e seu companheiro de equipe Aleix Espargaro, cujo vício em ciclismo moldou em um atleta extremamente leve.


O teste positivo de drogas de Iannone coloca a Aprilia em uma situação complicada. A fábrica italiana decidiu apoiar (e pagar salários) ao seu piloto até o fim do processo legal (argh, o tal Trânsito em Julgado). O italiano está proibido de participar de qualquer atividade oficial e a equipe precisa urgentemente de um substituto. A nova moto deve ser apresentada no teste de Sepang, uma máquina que se espera muito mais competitiva do que a antiga RS-GP. O candidato mais óbvio é o piloto de testes Bradley Smith, o inglês é veloz e competente, fornece um bom feedback para os engenheiros e a sua relação com toda a Aprilia é boa. Não é a única opção, mas certamente faz dele o favorito. Karel Abraham também está disponível e existem outras opções fora do restrito ambiente da MotoGP.

Mesmo uma sanção reduzida, um ano talvez, pode ser fatal para a carreira do piloto. Com exceção de Tito Rabat, todos os contratos da MotoGP vencem no final de 2020, as equipes acompanham atentas os jovens pilotos da Moto2 visando repetir o fenômeno Quartararo, que com certeza vai tornar muito mais difícil uma vaga para Iannone.

sábado, 11 de janeiro de 2020

MotoGP - Todos são importantes


 Valentino Rossi não atende ao chamado da equipe



Conta a lenda que uma onça parda fugiu de seu habitat natural no Parque Estadual de Itapuã, situado na região metropolitana de Porto Alegre, que foi invadido por entusiastas do turismo ecológico. A fera encontrou refúgio nos porões de uma empresa de tecnologia instalada nas proximidades. Quando sentiu fome, seu instinto caçador inibiu o risco de ser descoberta e ela atacou um engravatado que circulava pelas proximidades. Rendeu alimento suficiente para alguns dias. O fato se repetiu três ou quatro vezes, ela atacava a primeira pessoa que aparecia, carregava a vítima para um vão entre os alicerces da construção e tinha alimento por algum tempo. Um dia o animal abateu uma senhora já com alguma idade e em seguida identificou uma movimentação intensa, logo seu esconderijo foi descoberto e foi capturado. Para sua infelicidade havia atacado a “tia do cafezinho”, cuja ausência foi imediatamente notada por todos.

Pode parecer brincadeira, mas esta pequena fábula serve para justificar a importância de todas as pessoas que fazem parte de uma organização, inclui as equipes que disputam Fórmula 1 e MotoGP. Grandes campeões compreendem a importância de todas as pessoas, incluindo as que respondem pelas funções mais básicas, no resultado final de uma prova. O primeiro atrito entre Ayrton Senna e Alain Prost, quando ambos dividiram os boxes da McLaren em 1988, surgiu pelo hábito do brasileiro em dividir os prêmios por vitória com os mecânicos que cuidavam do seu carro. Esta atitude foi interpretada pelo francês como uma tentativa de promover cizânia entre os membros da equipe.

Talvez a maior comprovação que o entrosamento entre piloto e equipe seja essencial para obter resultados tenha acontecido no GP da Alemanha em 2016. Na ocasião a indecisão do clima forçou a direção de prova declarar a corrida como “Flag to flag”, ou seja, caso necessário seria autorizada a troca de equipamentos. Marc Márquez teve um início de prova desastroso após perder várias posições e realizar um passeio pela brita nas primeiras voltas. Estava fora da disputa pelas primeiras posições, que incluía, entre outros, Andrea Dovizioso, Valentino Rossi e Cal Crutchlow. Perto do primeiro terço de prova, como as condições da pista melhoravam gradativamente, Marc foi chamado pela equipe para mudar sua moto por uma equipada seu com pneus slick. Com a pista secando, o piloto da Honda começou a fazer voltas com entre 5 e 10 segundos mais rápidas que os líderes. Todas as equipes notaram a melhora significativa nos tempos e orientaram seus pilotos para realizarem a troca, algumas esperaram várias voltas até serem atendidas. Na MotoGP não existia (e ainda não existe) a comunicação bilateral e as comunicações dos boxes é são restritas, depois da largada o piloto é solitário e decide se aceita ou não as orientações. Uma foto que caracteriza o GP foi uma atitude de desalento de um membro da Yamaha com os braços levantados quando Rossi, ainda na disputa da liderança, não entrou nos boxes para realizar a troca. Márquez obteve uma vitória muito improvável, com a diferença absurda de quase 10 segundos sobre Crutchlow, o segundo colocado. Valentino Rossi, que estava na corrida pelo título mundial, foi apenas o 8º.

Muitos repórteres que cobrem a MotoGP alegam que Jorge Lorenzo fracassou em sua primeira temporada na Ducati por ter que trabalhar com uma equipe completamente nova, onde até o jargão utilizado era diferente. Lorenzo foi autorizado a levar um único membro do seu grupo de apoio na Yamaha, o mecânico Juan Llansa e foi obrigado a abrir mão do chefe de equipe Ramon Forcada, com quem ele trabalhou desde a sua estreia na principal categoria em 2008.

A M1 #46 de Valentino Rossi foi apenas a 3ª Yamaha classificada no último mundial, 7ª no geral, uma colocação inaceitável para o maior nome em atividade na motovelocidade. Talvez em função destes resultados Rossi fez uma mudança significativa na sua equipe pessoal, promoveu Davide Munoz, que era chefe da equipe VR46 na Moto2, para o lugar de Silvano Galbusera que trabalhou com ele desde 2014.

A sabedoria popular ensina que “não se mexe em time que está ganhando”, esta máxima pode ser integralmente aplicada na equipe que trabalha junto com Marc Márquez. Com muito poucas exceções, todos estão com ele desde os tempos da Moto2 em 2012. Santi Hernández, o chefe da equipe trabalha com o piloto desde 2011 quando o espanhol subiu para a Moto2. Desde então venceram juntos 7 títulos, 1 na Moto2 e 6 na MotoGP. Hernández lidera a equipe de traduzindo o feedback do piloto em decisões sobre configurações do equipamento, que transmite para o resto da equipe. O campeão do mundo também tem uma assessoria pessoal desde o início de sua carreira, Emilio Alzamora, o piloto que em 1999 foi coroado campeão mundial de 125cc sem ganhar um único GP. Um dos homens mais influentes da MotoGP e conhecido nos boxes como o 3º Márquez, Emilio mostrou para o MM93 que ser rápido é apenas a ponta do iceberg, atitudes profissionais são tão vitais nas pistas como trabalhando com patrocinadores, mídia e os fãs.

Mesmo as funções mais humildes, no degrau mais baixo da hierarquia, são importantes para todo o processo. Um único parafuso mal apertado pode comprometer o desempenho da moto em uma prova. As pessoas são os principais ativos de uma equipe, quando tudo funciona bem cada qual sabe o papel que lhe cabe e que qualquer falha em suas obrigações prejudica todos.


MotoGP - Honda é só Marc Márquez?





A última grande mudança na MotoGP aconteceu em 2002, quando o regulamento da principal categoria permitiu os motores 4 tempos. Desde então ocorreram 18 temporadas, deste total a Honda conquistou dez títulos mundiais, com quatro pilotos diferentes (Rossi, Hayden, Stoner e Márquez), a Yamaha somou sete títulos com dois pilotos (Rossi & Lorenzo) e a Ducati ficou com o restante (Stoner).



As últimas performances do piloto de Catalunha, que venceu 9 dos 10 GPs obtidos pelas máquinas Honda em 2018 e todas as 12 vitórias de 2019 resultaram em um consenso na mídia que a fábrica é dependente do piloto. O recente fracasso de Jorge Lorenzo parece corroborar essa versão. Lorenzo foi o único a obter um mundial por outra equipe nesta década.



Segundo o folclore dos bastidores, o espanhol (Márquez) é um piloto diferenciado e muitos consideram que a única maneira de uma Aprilia, mesmo com problemas de orçamento, conquistar um pódio nos próximos anos é contratar Marc Márquez.



O que poucos consideram é e estrutura da Honda, comportamento público do piloto e a eficiência da equipe de apoio. A indústria nipônica trabalha no estado da arte da tecnologia, Márquez é talvez o único piloto que nunca fez uma crítica pública ao comportamento do equipamento e a sua equipe de apoio o acompanha desde seu primeiro mundial na 125cc. Na única prova que não concluiu em 2019 houve um forte boato que sua queda foi devida a um erro de configuração para o torque negativo
(leia-se freio motor), o piloto assumiu como erro dele.



O retorno aparece, Márquez ganhou doze GPs na última temporada e estabeleceu um novo recorde de pontos, quase sozinho obteve a tríplice coroa, títulos de pilotos, equipes e construtores para a HRC.

MotoGP - O Sonho da Aprilia


RS-GP de Espargaró, - Sepang, fevereiro 2019


O Grupo Piaggio com sede corporativa localizada em Pontedera, uma comuna italiana da região da Toscana, província de Pisa, administra um complexo industrial que atua na produção de veículos automotores de duas rodas e equipamentos comerciais compactos. As industrias vinculadas ao grupo produzem viaturas comercializadas por sete marcas, Piaggio, Vespa, Gilera, Moto Guzzzi, Scarabeo, Derbi e Aprilia.

Na MotoGP a Aprilia sempre foi considerada o “primo pobre”, a menor fábrica a participar da competição e com o menor contingente de técnicos e engenheiros nos boxes durante os GPs. Na temporada de 2019 a equipe foi a 6ª e última colocada no campeonato dos construtores marcando apenas 88 pontos (59 de Aleix Espargaro e 29 de Andrea Iannone). A Aprilia, assim como a Suzuki, não tem equipe satélite, que implica em menor número de pilotos coletando dados para alimentar a retaguarda técnica.

A fábrica anuncia o único equipamento original na temporada de 2020, com motor e chassi radicalmente novos, resultantes de aumento expressivo de investimento financeiro do Grupo Piaggio. A Aprilia ainda não anunciou a especificação do novo equipamento, é provável que ele seja impulsionado por um motor V4 90°, substituindo os V4 75° que aparentemente atingiram seu limite na geração de potência. Em 2012 a Honda substituiu o RC212V de 75° de 800cc pelo seu RC213V 90° 1000cc, inspirada no sucesso do lay-out utilizado pela Ducati, a Aprilia pode seguir este mesmo caminho. Um V4 90° não é tão esguio quanto um V4 75°, porém os engenheiros da Honda encontraram maneiras de produzir um protótipo compacto, a fábrica italiana tem este mesmo objetivo. O V4 90° entrega melhores resultados na aceleração, freio motor (torque negativo) e habilita configurações mais efetivas na temporização de disparos (big bang). Diferentes ordens de disparos permitem maior eficiência na gestão da travagem do motor. Estima-se que o novo motor da Aprilia entregue 280 cavalos de potência, um acréscimo de 10% sobre o atual, o que sugere que o novo equipamento Aprilia deve ter um desempenho competitivo em linha reta.

Na MotoGP o torque negativo é quase tão importante como a retomada de velocidade nas curvas porque o comportamento dos pneus dianteiros da Michelin não é tão eficiente como eram os Bridgestone, que obriga os pilotos a usar o pneu traseiro para parar a moto. Em seu primeiro ano na Ducati Jorge Lorenzo disse que as GP17 o obrigaram a reaprender a pilotar, preocupar-se em utilizar mais a traseira, “como num barco” em suas próprias palavras. Em 2019 Aleix Espargaro e Andrea Iannone tiveram sérios problemas para frear a RS-GP porque o freio motor era ineficaz, a esperança é que um novo propulsor corrija este problema. 

Coincidindo com o início das novas regras que elevaram a capacidade cúbica do motor para 1000cc (2012) a FIM permitiu, para aumentar o número de participantes no grid, as motos classe CRT (Claiming Rules Team) que utilizavam motores comerciais e tinham uma série de concessões para obter um desempenho semelhante aos dos protótipos, além da classe Open, sem apoio da eletrônica.

A construtora italiana obteve um expressivo ganho de qualidade com a contratação de Andrea Iannone. Até então, por ter desenvolvido sua carreira em equipes CRT o piloto Aleix Espargaro começou na MotoGP competindo com motores comerciais sem grandes recursos, com a experiência de Iannone houve expressivo avanço na eletrônica e consequente melhor desempenho. A Aprilia, com o apoio incondicional do Grupo Piaggio, está investindo muitos recursos (pessoas, tempo e $) para superar o gap que a separa das outras equipes, recontratou um eng. eletrônico da equipe Ferrari de Fórmula 1 que já havia trabalhado para fábrica e resgatou outro eng. eletrônico que a Suzuki roubou há alguns anos. Também buscaram um especialista em aerodinâmica da Ferrari, reforçando todos os departamentos.

Todos esperam muito de 2020. A reorganização comandada pelo CEO da Aprilia Racing, Massimo Rivola, ajudou a libertar o engenheiro-chefe Romano Albesiano para projetar uma nova RS-GP a partir do zero. A esperança é que a moto seja muito mais competitiva do que a V4 75° atual. Com a notícia do doping de Andrea Iannone agora a equipe fica sem um recurso importante do programa de MotoGP, um piloto experiente e comprovadamente veloz. O advogado de Iannone declarou que a amostra B do teste de drogas confirmou a anterior (nem poderia ser diferente, o material foi colhido na mesma ocasião). De acordo com os regulamentos da FIM o italiano está automaticamente banido por quatro anos por uso do esteroide anabolizante drostanalone.

As quantidades encontradas na amostra foram mínimas, o advogado de Iannone informa que a contraprova indicou mostrou a presença de metabólitos igual a 1,15 nanogramas por mililitro. Considerando que a amostra estava extremamente concentrada por ter sido colhida com o piloto desidratado logo após a corrida quente e húmida na Malásia, indicaria uma presença ainda menor em condições normais, apoiando a teoria da contaminação acidental através de alimentos. Em favor de Iannone, foi a primeira vez que foi testado em 2019, no ano passado foi um dos cinco pilotos escolhidos para seguir o programa ADAM (Arrestee Drug Abuse Monitoring), sistema onde os atletas têm de informar continuamente onde estão e o que estão fazendo para habilitar a colheita de amostras a qualquer tempo. Suas opções de defesa agora são limitadas, a FIM, como a maioria das federações esportivas internacionais, adotou o código WADA (Agência Mundial Antidopagem), que afirma explicitamente que os atletas são responsáveis por todas as substâncias encontradas em seus corpos. Pode haver circunstâncias atenuantes, mas a drostanolona, um esteroide androgênico anabolizante, conhecido no jargão da medicina esportiva como "substância não especificada", é visto como extremamente improvável de ser encontrado como resultado de processos naturais ou contaminação acidental.

As chances de evitar ou reduzir uma condenação são escassas. Se a defesa é contaminação acidental, Iannone tem o ônus da prova. O vetor comum para a contaminação com esteroides anabolizantes é o consumo de carne. Clenbuterol é amplamente utilizado no México, América do Sul e partes da Ásia para o gado ganhar peso, então a contaminação por este esteroide é comprovadamente uma possibilidade real, assim como a contaminação com uma série de outros produtos semelhantes. No entanto, a drostanolona, por reduzir a gordura corporal, expelir a água e ser um produto cuja produção demanda um custo bem maior que a maioria dos outros esteroides comuns, não é atraente para os produtores de proteína animal, assim a chance de ser ingerido através de carne contaminada é extremamente improvável. Normalmente esta substância é encontrada em fisiculturistas, pugilistas e lutadores MMA que buscam o enquadramento em determinadas categorias do esporte. Pode ser usado em ciclos relativamente curtos - duas a quatro semanas – e seus componentes são expelidos normalmente do corpo de forma relativamente rápida, desaparecendo totalmente após cerca de três semanas. Para um piloto da MotoGP o resultado da ingestão do produto seria perder peso e obter mais massa muscular. A quantidade encontrada é consistente com o fim de um ciclo anabolizante, ou seja, pouco mais de duas semanas depois do esteroide ser ingerido.

Iannone admite que estava seguindo um programa de perda de peso até 2019, mas disse o foco era alimentação controlada e exercícios aeróbicos. A Aprilia estava ciente e o objetivo era reduzir a diferença corporal entre ele e seu companheiro de equipe Aleix Espargaro, cujo vício em ciclismo o moldou em um atleta extremamente leve.

O teste positivo de drogas de Iannone coloca a Aprilia em uma situação complicada. A fábrica italiana decidiu apoiar (e pagar salários) ao seu piloto até o fim do processo legal (argh, o tal Trânsito em Julgado). O italiano está proibido de participar de qualquer atividade oficial e a equipe precisa urgentemente de um substituto. A nova moto que deve ser apresentada no teste de Sepang, uma máquina que se espera muito mais competitiva do que a antiga RS-GP. O candidato mais óbvio é o piloto de testes Bradley Smith, o inglês é veloz e competente, fornece um bom feedback para os engenheiros e a sua relação com toda a Aprilia é boa. Não é a única opção, mas certamente faz dele o favorito. Karel Abraham também está disponível e outras opções existem fora do restrito ambiente da MotoGP

Mesmo uma sanção reduzida, um ano talvez, pode ser fatal para a carreira do piloto. Com exceção de Tito Rabat, todos os contratos da MotoGP vencem no final de 2020, as equipes acompanham atentas os jovens pilotos da Moto2 visando repetir o fenômeno Quartararo, que com certeza vai tornar muito mais difícil uma vaga para Iannone.