quarta-feira, 10 de março de 2021

Programação inicial da MotoGP 2021


Imagens de Losail (Catar) - 07/03 a 09/03



Os motores dos protótipos da MotoGP foram ligados no Catar (Losail) oara o primeiro teste programado da temporada  de 2021


Imagem 01 - Jorge Martin - Pramac Ducati



Imagem 02 - Alex Márquez - LCR Honda Castrol



Imagem 03 - Francesco (Peco) Bagnaia - Ducati Lenovo



Imagem 04 - Valentino Rossi - Sepang Petronas



Imagem 05 - Pol Espargaró - Repsol Honda



Imagem 06 - Joan Mir - Suzuki Ecstar



Imagem 07 -Iker Lecuona - Tech3 KTM



Imagem 08 - Miguel Oliveira - KTM



Imagem 09 - Miguel Oliveira - KTM



Imagem 10 - Cal Crutchlow - Yamaha Test Rider



Imagem 11 - Dani Pedrosa - KTM Test Rider 



Imagem 12 - Fabio Quartararo - Monster Yamaha



Imagem 13 - Luca Marini - Sky VR46 Avintia



Imagem 14 - Johann Zarco - Pramac 



Imagem 15 - Jack Miller - Ducati Lenovo



Imagem 16 - Aleix Espargaró - Aprilia



Imagem 17 - Takaaki Nakagami - LCR Honda Idemitsu



Imagem 18- Franco Morbidelli - Sepang Petronas



Imagem 19 - Franco Morbidelli - Sepang Petronas



Imagem 20 - Danilo Petrucci - Tech3 KTM



Imagem 21 - Stefan Bradl - Repsol Honda



Imagem 22 - Miguel Oliveira (KTM) & Enea Bastianini (Avintia)



Imagem 23 - Jack Miller - Ducati Lenovo



Imagem 24 - Alex Rins - Suzuki Ecstar



Imagem 25 - Joan Mir - Suzuki Ecstar
 



Imagem 26 - Cal Crutchlow - Yamaha Test Rider



Imagem 27 - Brad Binder - KTM



Imagem 28 - Danilo Petrucci - Tech3 KTM



Imagem 29 - Alex Márquez - LCR Honda Castrol



Imagem 30 - Aleix Espargaró - Aprilia



Imagem 31 - Enea Bastianini - Avintia



Imagem 32 - Takuya Tsuda - Suzuki Ecstar Test Rider

MotoGP - Equipes britânicas e o Brexit




Equipes e pilotos do Reino Unido enfrentam entraves burocráticos e novos regulamentos para trabalhar na Europa, incluindo licenças, estadias limitadas, permissões e vistos de trabalho. 


 

Carreta da Pata Yamaha (Crescent Racing) pronta para ir para o continente

O ano de 2021 é o primeiro em que pilotos e equipes britânicas participam de competições como não membros da União Europeia, e terão de enfrentar alguns desafios decorrentes do Brexit. No motociclismo esportivo há apenas duas equipes de porte competindo em campeonatos mundiais com sede na Inglaterra, ambas na Superbike. A BMW Shaun Muir Racing e a da Pata Yamaha Crescent Racing. Ambas têm estrutura financeira e recursos para endereçar e resolver dificuldades decorrentes do Brexit, porém as mesmas questões também afetam equipes com orçamento menor e pilotos avulsos que querem competir na Europa.

A SMR e Crescent estimam que os custos aumentarão e ambas estão considerando mudar suas bases de operações para a Europa, evitando complicações para cruzar fronteiras e transportar regularmente funcionários, carretas, máquinas e equipamentos de apoio para entrar ou sair da UE. A Crescent já está montando uma empresa na República da Irlanda para obter facilidades alfandegarias.

O Brexit acabou com a liberdade de circulação dos cidadãos da UE no Reino Unido e vice-versa, consequentemente acabou com a liberdade de circulação de bens e serviços. A burocracia adicional resultante envolve 3 questões principais: licenças, vistos e o limite de dias para britânicos trabalharem na UE.

Licenças permitem a importação/exportação temporária de bens, com a garantia que não possam ser comercializadas no destino. A licença para uma carreta deve incluir todos os itens embarcados, motocicletas, pneus avulsos e até motores de reposição, abrangendo scooters de paddock, ferramentas e peças individuais, porcas,  parafusos e assim por diante.

Equipes menores e pilotos não profissionais também precisam de licenças para levar as motos de/para a Europa. Motos rodoviárias são isentas, porém qualquer Van que transporte mais de uma máquina (para eventos de dia de pista, por exemplo) é considerada um empreendimento comercial e exige uma licença. 

O custo básico da licença é cerca de £300 (aproximadamente R$ 2.300,00), mais um depósito reembolsável de 40% do valor da Van/Carreta e todo o seu conteudo, ou um prêmio de seguro não reembolsável para cobrir o valor de 40% dos bens. A Shaun Muir Racing estima o custo anual em licenças por carreta entre £4000 (R$ 30,6 mil) e £5000 (R$ 38,3 mil). A equipe utiliza 4 carretas no continente.  

As licenças são válidas por 12 meses e várias viagens, desde que os itens listados não mudem significativamente. Por exemplo, uma licença nova é necessária se os equipamentos na remessa ou se o número de pneus mudar. Os requisitos são exigidos para todas as equipes que entram/saem no Reino Unido.
 
 

Apresentação da BMW Shaun Muir Racing com os pilotos Sykes e Reiterberger


“As taxas de licenciamento são bastante dolorosas”, diz Paul Denning, executivo principal da Crescent, que comanda a operação Pata Yamaha com os pilotos Toprak Razgathoglu e Andrea Locatelli. “Somos uma equipe e uma empresa bem estabelecida para que possamos colocar tempo, dinheiro e recursos humanos para administrar a burocracia”. O cenário não é atraente para equipes menores que saem do Reino Unido com orçamentos apertados para disputar World Supersport 300 ou 600. Pode não ser impossível, mas requer um grande sacrifício.

“Não há apenas uma implicação de custo, há também um monte de incômodo, porque é necessário ter certeza de que cada pneu, cada item de roupa de piloto, cada componente de bicicleta que sair do Reino Unido volte”. Há ainda a incerteza de chegar ao destino no prazo. Existe sempre a possibilidade de encontrar algum fiscal que utilize a sua autoridade de forma deliberadamente não cooperativa e decide vistoriar detalhadamente a carga, descarregar todas as motos e esvaziar as caixas de ferramentas para contar o número de chaves, parafusos, e comparar com a licença.

Na BMW Shaun Muir Racing as pessoas que trabalham no escritório estão totalmente focadas nos problemas de fronteiras, quase 24 horas por dia, 7 dias por semana. “É claro que ajuda com quem você trabalha – usamos o serviço da DSDF (empresa norueguesa) de balsas para transporte de/para o continente e eles têm muito úteis com papelada e documentação”.

Paul Denning da Crescent está trabalhando ao lado das equipes da Fórmula 1 sediadas no Reino Unido que estão passando pelos mesmos processos em uma escala bem maior. Algumas equipes de F1 já enviaram Vans e caminhões para a UE para detectar possíveis problemas antes do início da temporada de corridas. Alguns desses veículos passaram um ou dois dias esperando para atravessar o canal.

 A SMR faz seus próprios ensaios. "Já tivemos problemas com uma Van indo para a França”, diz Shaun Muir, que dirige a equipe BMW Motorrad e tem como pilotos Michael van der Mark e Tom Sykes. "O procedimento não é ruim se a papelada estiver certa, mas sempre há a chance de encontrar um cara da alfândega de mau humor. Para evitar atrasos estamos antecipando as viagens em 4 dias, apenas para ter certeza de que estaremos no circuito no dia das provas”.

Um problema ainda não bem endereçado é a atividade de pilotos em provas e testes na Europa. Atualmente há muita confusão em relação ao status dos funcionários das equipes do Reino Unido que precisam trabalhar nos países da UE, devido a ambiguidades significativas nos documentos oficiais dos váruis países. Os pilotos britânicos e os funcionários da equipe precisarão de vistos de trabalho e permissões para cada país da EU? Ninguém parece ter 100% de certeza.

“Os vistos são um pesadelo totalmente diferente”, acrescenta Denning. “O problema real é que as regulamentações são contraditórias. Algumas pessoas dizem que vistos ou licenças de trabalho não são necessários, outras dizem tem que ser feitos. Se tivermos que trilhar por esse caminho, temos que considerar que  a estimativa para um visto abrangente de trabalho na Itália está entre £1500 (R$ 11,5 mil) e £3000 (R$ 23 mil) por pessoa. Em uma única prova a equipe utiliza entre 20 e 30  profissionais. 
 
 


Pata Yamaha WSBK Official Team (Crescent Racing)


Por não terem conhecimento na área, a Crescent e algumas equipes de Fórmula 1 recorreram a empresas especializadas em imigração e vistos, como por exemplo a Newland Chase, uma organização britânica sediada em Londres, que acredita que vistos de trabalho e permissões serão necessários em alguns países da UE para que os funcionários estejam totalmente em conformidade com as regulamentações.

“Fazendo uma comparação com o trabalho dos músicos, não há nenhuma disposição no Acordo de Comércio e Cooperação entre o Reino Unido e a UE para facilitar o trabalho destes profissionais, bem como de esportistas”, diz Jason Rogers, advogado especializado em imigração global em Newland Chase, a demanda de serviços prestados pela empresa está desde que a Grã-Bretanha deixou a UE. Para o caso dos músicos, pilotos e mecânicos, vale a regulamentação individual de cada país.

Um visto de trabalho é normalmente emitido no posto diplomático do país de destino. Por exemplo, um piloto que deve participar de uma prova na Itália e reside no Reino Unido pode solicitar um visto de trabalho no Consulado Italiano. Uma licença de trabalho geralmente é emitida pelas autoridades de imigração no país de destino. No exemplo acima, a autorização de trabalho seria emitida pelas autoridades de imigração na Itália.

Pode eventualmente ocorrer que os oficiais de imigração no aeroporto ou porto de entrada possam emitir o visto de trabalho quando o indivíduo chegar. Também é possível que alguns países exijam uma permissão de trabalho e um visto de trabalho para que o indivíduo esteja totalmente em conformidade com as regras e regulamentos de imigração, mesmo que temporária.

Na união europeia os requisitos para a emissão de vistos variam de país para país. Por exemplo, a Embaixada alemã afirma que “atletas profissionais e funcionários contratados das equipes participantes” estão entre os cidadãos britânicos que estão isentos da exigência de vistos para estadias curtas de trabalho. A situação com outros países da UE parece mais nebulosa.

Paul Denning está se cercando de todas as opções possíveis. Por exemplo, acredita que a apresentação de cartas do detentor dos direitos da MotoGP/WSB, Dorna Sports, e da FIM, solicitando liberdade de passagem ajudará no controle alfandegário. A questão é como os funcionários individuais de fronteiras interpretam a multiplicidade de diferentes regulamentos. “No momento, estamos com nossas esperanças centradas nessas cartas, mas definitivamente há muita incerteza: pode funcionar com alguns agentes de fronteiras, se funcionários alfandegários têm interpretações diferentes pode acontecer que não haja mecânicos para montar as motos na quarta ou quinta-feira que precedem um GP”.

Uma questão igualmente não definida é o limite de 180 dias por ano  para os funcionários britânicos que trabalham na Europa. “Este é o maior problema com o que temos que lidar agora. Com as corridas e testes que planejamos, já estamos em 108 dias” acrescenta Muir.

Shaun Muir e Paul Denning estão considerando seriamente mudar suas equipes para a Europa, porque as implicações de custos do Brexit para disputar o campeonato WSB estão estimadas entre £ 50.000 e £ 100.000 a mais este ano (entre R$ 380 mil e R$ 760 mil). “Já havia estudos avançados em mudar a sede da equipe antes do Brexit por razões logísticas e para centralizar as operações”, diz Muir. “Agora a decisão é urgente, sabendo que mudar para a Europa não resolverá o problema em 90 dias. Não vou dispensar meu pessoal britânico e contratar funcionários europeus, então temos de lidar com a decisão do acordo da UE. Já existe precedente, 2 colaboradores franceses têm vistos de trabalho válidos por 5 anos no Reino Unido, tudo o que temos que fazer é o equivalente inverso se decidir mudar para a Europa”.

 
 
O comboio de carretas da BMW SMR a caminho do Continente


Denning está desenvolvendo ideias muito semelhantes. “Estamos seriamente analisando a mudança de nossa empresa para a Itália se as coisas não mudarem para melhor no que diz respeito à flexibilidade”, diz ele. “É provável que recadastraremos nossas carretas na Itália, o que já é uma perda de receita para o Reino Unido porque os veículos não terão mais a manutenção e as reformas executadas em solo britânico”. 

Muir está procurando respaldo na área política, já teve reuniões com deputados e com o Secretário de Estado da Cultura, Mídia e Esporte britânico na esperança de melhorar a situação. “A situação foi colocada, eles reconhecem que há um problema, então vamos ver o que acontece” diz ele.

Paul Denning, da Pata Yamaha Crescent Racing não está confiante em soluções rápidas porque qualquer relaxamento das regulamentações que abrangem pessoas e mercadorias que entram na UE teria que ser recíproco pelo governo britânico para pessoas e mercadorias que entram no Reino Unido. “Não esperamos que nada fique mais fácil no curto prazo”, diz ele.

Como dificilmente um problema vem desacompanhado, pilotos e equipes ainda tem que enfrentar a pandemia Covid-19. Há um complicador enorme quando o Brexit se entrelaça com as questões de Covid, tudo indica que o enfrentamento do vírus seria mais fácil se não houvesse a saída do Reino Unido da União Europeia.

Por exemplo, equipes britânicas podem ter que ficar na Europa para evitar a quarentena se a Espanha ou outro país que hospedar um GP entrar na zona vermelha para a reentrada no Reino Unido. Tudo isto implica em custos adicionais em um cenário onde a economia está muito debilitada.
 
Resumindo, não há nenhuma vantagem potencial do Brexit para pilotos e equipes britânicas que desejam participar de campeonatos mundiais. Apenas desvantagens. Nas palavras de Paul Denning “Um absurdo - administrar uma enorme quantidade de energia negativa e recursos financeiros para nada”. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

F1 & MotoGP – Números

 



No início da década de 70 os valores, interesses e anseios da sociedade eram diferentes. O cantor Luiz Américo emplacou (nos dias atuais o termo correto seria viralizou) um sucesso explorando um tema que então angustiava a maioria dos brasileiros, o refrão da música dizia: “Dez é a camisa dele, quem é que vai no lugar dele”. A seleção brasileira de futebol havia conquistado a copa do mundo de 1970 e o seu maior e mais confiável atleta solicitou aposentadoria. A mítica da camisa 10 da seleção brasileira persiste até os dias atuais e remete a todos a lembrança do Rei Pelé.
 
Associar um número para identificar a um atleta é um costume antigo, cuja origem se perde no tempo. Nos esportes motorizados, onde as atuais proteções físicas (principalmente o capacete) impedem visualizar as feições do condutor, a indicação numérica é a maneira mais fácil de identificar o piloto. Em1986 o inexpressivo Johnny Dumfries substituiu Elio de Angelis na formação da Lotus (Fórmula 1) e Ayrton Senna foi promovido para 1º piloto da equipe. A organizadora atendendo a insistentes pedidos do pessoal de marketing solicitou e foi atendida pela equipe para manter o piloto brasileiro com o nº 12. Havia farto muito material publicitário pronto associando Ayrton Senna ao número.
 

Ayrton Senna com o Lotus #12


A Fórmula 1 e a MotoGP facultam aos campeões do ano anterior utilizarem o nº 1 na temporada seguinte. É uma forma de exaltar a conquista e tem um valor publicitário, uma foto do equipamento com o #1 estampado associa o piloto e a equipe ao sucesso.

Até 1973 não existia uma numeração fixa na Fórmula 1, a identificação dos carros podia variar durante a temporada, então a FIA determinou que "a equipe campeã do ano anterior usaria os números 1 e 2 e as outras equipes teriam número fixo até o fim da temporada". Em 1974 os números foram rearranjados de acordo com a classificação do campeonato de construtores do ano anterior, Ronnie Peterson foi beneficiado pelo campeonato de construtores da Lotus (Peterson e Senna) e usou o nº 1, a Tyrrell, equipe do piloto campeão da temporada (Jackie Stewart) ficou com os nº 3 e 4. Foi o único caso na história recente de um piloto usar o #1 sem ter sido campeão. Nos anos seguintes ficou estabelecido que a esquadra que tivesse o piloto campeão teria direito ao nº 1 e 2, quando uma equipe (através de seu piloto) conquistava o campeonato, a numeração era trocada com a do antigo campeão. Em 1979 Jody Scheckter venceu o campeonato com a Ferrari e a equipe trocou a numeração com a Lotus (11 & 12).

Alguns números ficaram associados às equipes, 3 e 4 na Tyrrell (nunca mais teve um piloto campeão) e o número 27 na Ferrari (entre e 1981 a 1995, a equipe italiana só não usou o 27 em 1990 (era o número de Ayrton Senna na McLaren que cedeu o nº 1 para Alain Prost).
 
 
Damon Hill com o Williams #0
 

Damon Hill da equipe Williams usou o nº 0 em 1993 porque Nigel Mansell, o campeão da temporada anterior, migrou para a Fórmula Indy e a nenhum piloto é concedido o direito de usar o nº 1 sem ter sido o campeão.

O maior numeral já utilizado na F1, #208, foi da única mulher que conseguiu pontuar, Lella Lombardi.

A partir de 2014, o critério de numeração mudou e cada piloto escolhe um número aleatório para usar durante um ano ou durante a toda a sua carreira, para ajudar a criar uma identificação que possa ser explorada pela mídia. Daniel Ricciardo, por exemplo, escolheu o #3, Valtteri Bottas optou pelo #77 e Pastor Maldonado selecionou o #13 que não havia sido usado em quase quatro décadas. O número 1 continua sendo usado apenas pelo campeão e o primeiro (e único) que utilizou este privilégio sob este novo formato foi o Sebastian Vettel. Em 2015 o britânico Lewis Hamilton teria direito a usar o #1 por ter sido o campeão, porém preferiu manter o nº 44, por superstição ou interesses comerciais.

O número 17 usado pelo francês Jules Bianchi quando sofreu o acidente fatal no GP do Japão de 2014 foi banido, não pode mais utilizado por nenhum piloto na Fórmula 1.
 
A MotoGP seguiu uma trilha semelhante.
 
Em Tavullia, Itália, o limite de velocidade no perímetro urbano é estranho, 46 km/h.  Não é resultado de um cálculo científico rigoroso para proteger a população, é uma homenagem que o pequeno município presta a seu mais ilustre cidadão, o 9 vezes campeão do mundo Valentino Rossi. Rossi herdou o #46 de seu pai Graziano Rossi que competiu sem muito sucesso nas classes 500cc e 250cc entre 1978 e 1982. Com uma visão comercial apurada, Rossi explorou o #46 como uma marca pessoal, aproveitou o seu sucesso nas pistas e inundou seus admiradores e fãs do motociclismo com bandeiras amarelas identificadas com o número. Embora tenha sido campeão em 7 temporadas, o italiano nunca incorreu na tentação de utilizar o #1.

 
 
Valentino Rossi com o #46
 
Dois campeões que antecederam a era de Valentino, Kenny Roberts Jr, e Alex Crivillé utilizaram o #1, que ficou ausente das pistas nos 5 campeonatos seguidos de Rossi. Nicky Hayden e Casey Stoner voltaram a usar o privilégio em 2007 (Hayden), 2008 e 2012 (Stoner), Rossi voltou a conquistar e manter o #46 no topo em 2009 e 2010. Jorge Lorenzo exerceu o seu direito em seu primeiro mundial (2010), nos dois seguintes preferiu manter a sua identidade tradicional (#99).

Marc Márquez sempre foi fiel à sua identidade, #93. O piloto espanhol costuma fazer a sua comemoração por vitórias desfilando pela pista com uma bandeira com o número 93. Márquez nasceu e vive na Catalunha, devido aos movimentos políticos separatistas da Espanha, o piloto evita um posicionamento político e não promove a bandeira nacional.
 

 
Barry Sheene – bicampeão mundial de 500cc com o inesquecível #7
 

Durante a evolução da história alguns pilotos se tornaram sinônimos de seu número de corrida. Fazem mais de 4 décadas que Barry Sheene venceu o segundo de seus títulos mundiais de 500cc pela Suzuki, porém na Grã-Bretanha ele nunca é esquecido. Os dois títulos mundiais, a bravura e determinação para retornar após dois acidentes com risco de vida, o estilo de vida de rock-star e o casamento com a lindíssima modelo Stephanie McLean, Penthouse Pet de abril de 1970 e Pet of the Year em 1971, fazem parte desse legado. Para os britânicos tudo pode ser resumido ao número 7. Barry Sheene, falecido em 2003, foi o último campeão britânico da classe principal (500cc)  e ainda é conhecido como nº 7 por uma legião de fãs leais em todo o mundo.
 
 

Duas lendas da MotoGP – Jorge Lorenzo (#99) & Marc Márquez (#93)
 

Romper a tradição e recusar abandonar uma identidade própria para usar o #1 já não é entendido como um ato de rebeldia, é um diferencial pode ser explorado por profissionais de gestão de imagem com maior eficiência.  Marc Márquez conquistou oito títulos mundiais (3 categorias) e 82 grandes prêmios com o #93, o campeão mundial Jorge Lorenzo tentou o #1 após seu primeiro título na principal classe, mas voltou para o seu favorito #99 para vencer mais duas vezes.

Valentino herdou o #46 do seu pai, Marc Márquez muito provavelmente se inspirou em seu ano de nascimento (17/02/1993) para optar pelo #93 e Jorge Lorenzo explica que o #99 é o mais perto que pode chegar de seu objetivo, 100% de aproveitamento.

Um novo campeão egresso dos tempos de Covid começa a criar a sua própria história, o vencedor de 2020 Joan Mir comunicou aos organizadores que vai disputar a temporada 2021 com o seu #36.

 O campeão de 2020  Joan Mir com a Suzuki #36

domingo, 28 de fevereiro de 2021

MotoGP - Evolução da Eletrônica

 

Jenny Anderson – Engenheira de dados de Marc Márquez em 2021

Em 2016 a MotoGP tornou obrigatório para todos os protótipos participantes o uso de uma central eletrônica padrão (ECU, hardware & software), com o objetivo de aumentar a competitividade entre os equipamentos. Na época, as fábricas Honda e Yamaha monopolizavam as vitórias em GPs e haviam investido fortunas com eletrônica proprietária. Na ocasião Valentino Rossi, que estava na caça de seu 9º mundial e havia disputado o título de 2015 até a última prova, declarou que a eletrônica padronizada significava para a Yamaha um retrocesso de mais de 10 anos. A avaliação da Honda foi menos ácida, os adjetivos utilizados para caracterizar o produto foram “tosco” e “primário”.  Nos tempos atuais em que cada fração de segundo importa, um mapeamento eletrônico eficiente pode resultar em vitória.

Um dos fatores do sucesso de Marc Márquez é, além do seu talento natural e espirito competitivo, seu pessoal de apoio praticamente não muda, então a notícia que Jenny Anderson havia sido contratada para ser sua engenheira de software, após trabalhar com Pol Espargaró na KTM, foi uma das manchetes mais badaladas neste intervalo árido de novidades na MotoGP entre temporadas. Jenny tem uma ótima reputação nos boxes e é reconhecida como uma profissional competente.

A eletrônica de uma moto evoluiu muito além das funções tradicionais de controle de tração e anti-whellie, sua contribuição atual é administrar com retratos instantâneos e fieis de tudo o que acontece no protótipo durante uma competição. Por exemplo, não é simplesmente informar as pressões dos pneus, sensores indicam para cada pneu a pressão interior, temperatura interna do ar, temperatura interna da carcaça, temperatura da superfície externa e tudo o que pode ajudar o condutor a manter a banda de rodagem nos limites da janela de temperatura ideal para obter maior aderência e menor desgaste. Estas informações são importantes porque os pilotos utilizam com frequência as bordas dos novos pneus Michelin. Por oportuno, em uma sessão de testes de pneus realizada depois do GP da Austrália em 2019 Marc Márquez estabeleceu um novo recorde de inclinação, 70 graus. 

 Marc Márquez utilizando as bordas dos pneus

Embora existam restrições desde a implementação do quadro de distribuição e software unificado, os eletrônicos são uma parte fundamental dos protótipos, para facilitar o controle do equipamento e a otimização do desempenho do motor. Também desempenham um papel relevante em termos de segurança, controlar cerca de 270 CV apenas na roda traseira é uma tarefa quase impossível. Sem eletrônica a aceleração para retomada de velocidade, mesmo na segunda ou terceira marchas, faz a roda girar em falso, ainda inclinada saindo de curvas. Para evitar que isso aconteça existe o controle de tração.

O controle de tração usualmente é baseado em dados enviados pelos sensores de velocidades localizados nas rodas. Se o componente traseiro estiver girando muito mais rápido que o dianteiro (cerca de 12%, dependendo da configuração desejada), o sistema é acionado para tomar medidas corretivas, uma roda traseira derrapando coloca em risco a estabilidade e a aderência do veículo. Quando isto acontece, o controle de tração pode acionar a ECU para desligar ou reduzir o acelerador. A velocidade de reação é possível pelo uso da tecnologia "ride by wire", uma conexão elétrica entre o acelerador e as válvulas do motor, um comando mecânico não teria a velocidade suficiente. Outras medidas mais extremas podem ser adaptar os tempos de ignição do cilindro, deixar um sem faísca, ou realizar uma combinação destes comandos.

O sistema também considera o ângulo de inclinação do veículo antes de tomar decisões e analisa a posição da engrenagem que transmite a força do motor para a roda traseira. Todas as medidas são calculadas em uma fração de segundo para tomar uma decisão que pode ter consequências no resultado final de um GP.


Estrutura da roda traseira

Por exemplo, se um piloto levantando a moto no final de uma curva acelerar demais, o motor transmite muito torque para o pneu, como resultado a roda começa a derrapar agressivamente tornando o controle da parte traseira crítico. Os censores de velocidade enviam para a ECU um sinal que a roda traseira está girando muito rápido e o software adota as instruções descritas no mapa programado pela equipe nos boxes (trabalho dos engenheiros de software). Se o indicador for que a roda está deslizando, fecha parcialmente o acelerador e o torque é reduzido para a um nível aceitável. Quando o piloto finalmente conseguir levantar a moto, recuperar uma posição vertical e aumentar sua velocidade, a intervenção não é mais necessária. O sistema permite que a parte traseira da moto derrape ligeiramente e ajuda a preservar os freios.

O controle de tração permite ao piloto o uso da aceleração máxima, seja na arrancada ou durante uma volta. No entanto, pode acontecer que a aderência da roda traseira em conjunto com a potência do motor fazer a roda dianteira levantar (wheelie ou cavalinho). Para impedir esta ocorrência os pilotos da MotoGP se beneficiam deu um auxílio eletrônico chamado controle anti-wheelie.

O controle de tração é uma medida de segurança, o controle anti-wheelie, entretanto, é um sistema de otimização de desempenho. Devido às limitações que a Dorna impõe, este é um componente muito básico (a Honda classifica como “tosco”) se comparado com o existente nos antigos softwares proprietários.

 
Bradley Smith administrando um wheellie

O sistema anti-wheelie compara a velocidade de giro de ambas as rodas. Detecta quando o pneu dianteiro está desacelerando enquanto o motor está acelerando. Graças aos sensores de suspensão, o ECU é capaz de detectar se a roda dianteira está descolada do piso ou não. Localizados no garfo dianteiro os sensores indicam a posição da suspensão, quando totalmente estendido é um sinal claro de que a roda dianteira está no ar e o anti-wheelie deve ser acionado. Há um controle adicional que processa informações fornecidas pela plataforma inercial, descartando a possibilidade de que as divergências entre os números amostrados estejam sendo causadas a pela diferença entre os ângulos de ambas as rodas.

Quando é ativado o controle anti-wheelie funciona de forma análoga ao controle de tração, restringindo a abertura do acelerador e aplicando outras medidas quando necessário.

Pilotar um veículo de duas rodas em alta velocidade durante um GP implica passar diversas vezes por pontos dos circuitos onde o comportamento do equipamento é crítico. Os pilotos contam com auxílios eletrônicos que suavizam a ação do freio motor e administram o chamado anti-jerk. Não existe no idioma português uma expressão que defina este fenômeno com exatidão, jerk em inglês têm vários significados incluindo estúpido, cretino, idiota e outros. 

Em qualquer com motor de combustão o ato de soltar o acelerador produz a redução de velocidade nas engrenagens de transmissão, efeito conhecido “frenagem do motor" ou “freio motor”. Em algumas circunstâncias este efeito pode desestabilizar a roda traseira de uma moto, Avanços tecnológicos criaram um modo de administrar esta ocorrência com o auxílio da eletrônica.  

A frenagem do motor acontece quando o acelerador é cortado, reduz a quantidade de combustível que é aspirado (ou injetado) gerando uma espécie de vácuo nos pistões, o fornecimento de torque é interrompido gerando um impacto na roda traseira, resultando que ela reduz a velocidade rapidamente. Para evitar que este efeito seja agressivo, que pode resultar na perda de controle da traseira, existem os mapas de frenagem do motor, são acionados quando cessa a aceleração. 

A central da moto ajusta o mapa de acordo com a pressão no freio traseiro, extensão da suspensão e ângulo de inclinação. Com esses indicadores a aderência da roda traseira é calculada e uma série de ações ocorrem para reduzir o efeito da frenagem do motor. Algumas borboletas do acelerador (ou injeção) se abrem para deixar o ar entrar e minimizar o efeito do vácuo, algum combustível pode até ser fornecido para gerar uma pequena carga do motor.

Sempre que o piloto solta o acelerador e enquanto eles se inclinam para uma curva este sistema entra em ação. O processo é desativado quando a aceleração é retomada levantando a moto. Durante este processo (acelerar e levantar a moto) acontece mais um evento que pode desestabilizar o veículo. 

 Jerk na retomada de velocidade

Ao atingir o ápice (apex) de uma curva o piloto sai de 0% de aceleração para ganhar velocidade o câmbio tem que ser reativado para transmitir torque para a roda. A força aplicada na roda traseira passa de torque negativo (reduzindo a inercia), para torque positivo acelerando o veículo. A correia dentada e o sistema de transmissão apresentam alguma flexibilidade, que causa um tipo de tranco (empurrão) cuja intensidade pode fazer a moto derrapar ou até mesmo cair se estiver em uma inclinação ou posição complicada. O sistema anti-jerk trabalha para suavizar este efeito tanto quanto possível. Os mapas anti-jerk são simples e não costumam funcionar por mais de 50 milissegundos quando o piloto acelera. Os sensores que interagem com este programa também monitoram a quantidade de combustível que o piloto utiliza, a velocidade da roda traseira e do motor. Qualquer valor com leitura excessiva nestes dois últimos indicadores pode causar efeitos cumulativos e o equipamento fica incontrolável.  O sistema ajusta a pressão sobre o motor em uma porcentagem programada pelo mapa (pode chegar a 100%). Tudo acontece em um intervalo de tempo muito pequeno, o suficiente para suavizar não causar descontinuidade no processo de retomada de velocidade. Este sistema só é ativado na aceleração, ao contrário do controle de tração que fica ativo todo o tempo.

Controle de tração, anti-wheelie, frenagem do motor e anti-jerk são apenas algumas das inúmeras funções que podem ser administradas pela UCE. As características físicas dos protótipos são engessadas pelos regulamentos da competição e a busca por frações de segundo por volta depende de adequações que podem ser feitas nos mapeamentos eletrônicos, A eficiência e o sucesso da engenheira Jenny Anderson na KTM justifica o esforço da Honda para a contratar para compor a equipe do 6 vezes campeão da MotoGP. Como já foi citado em https://stilohouse.com.br/noticia/1150/caca-de-talentos, não é surpresa que os engenheiros de dados atualmente estejam mais valorizados, a eletrônica é a principal área de crescimento na MotoGP, apesar da especificação padronizada de ECU. Motores, chassis, pneus e suspensão existem há mais de um século, a eletrônica que controla toda a dinâmica das máquinas ainda é uma ciência recente.